O lugar onde vivo é Território Sagrado

Quando a nossa rua é mais do que uma pracinha, uma estrada alcatroada, um retângulo de grama ou um quintal suburbano, temos mais do que uma palavra a dizer acerca do que se passa à nossa volta. Mas não estamos sozinhos. Existe vida pulsando a cada instante, em cada recanto, perante o nosso olhar, acima das nossas cabeças e sob os nossos pés, seja ela vegetal ou animal. Temos por isso o dever e a possibilidade de a proteger, uma vez que os nossos domínios são privados e ninguém pode dispor desse espaço.

A propriedade está interditada à caça, às incursões de estranhos, à circulação de quaisquer veículos não autorizados, à prospecção, à realização de fogueiras ou queimadas por iniciativa alheia, e até à bem-intencionada prática de tocar tambores e outros instrumentos ditos “xamânicos”. Em suma, a qualquer invasão não consentida. As espécies vegetais e animais, bem como as mais etéreas e numenais, que partilham este espaço comigo, e que habitavam este território antes de mim e dos ancestrais que por aqui deixaram os seus vestígios líticos, podem sentir que estão de facto num reduto de paz, ainda que não estejam sós. A interferência com a pacífica coexistência resume-se a algumas práticas sazonais que visam a manutenção dos cultivos biológicos; agrícolas, hortícolas e de jardim, bem como das áreas arborizadas, de vinha e charneca.

Quando o nosso território se situa mais de cem metros acima do nível do mar e ronda pelo menos um hectare, é interessante perceber o que esta unidade métrica nos diz, através de um olhar atento à etimologia da palavra; hecto, do Grego “cem”, significando de um modo geral tudo o que é grande, conjugado com are, do Francês que desde o século XVIII indica 100m² e que deriva da raíz area, em Latim. Hecto é bem evocativo da deusa Hécate, um dos deuses Titãs que se aliou a Zeus. Esta deusa arcaica é aquela que empunha a tocha, a senhora das encruzilhadas, dos caminhos, das trevas nocturnas, de múltiplos dons e funções. De acordo com o citado por Hesíodo, na sua Teogonia, o épico grego do século VIII ou VII antes da Era Comum:

“Hécate, a quem Zeus filho de Cronos honrou acima de todos. Ele deu-lhe presentes esplêndidos, para ter uma parte da terra e do mar infrutífero. Ela recebeu honras também no céu estrelado, e é extremamente honrada pelos deuses imortais… Como todos os nascidos de Gaia (Terra) e de Urano (Céus), entre todos [Os Titãs] ela tem a sua devida porção. O filho de Cronos [Zeus] não a prejudicou nem tirou nada do que era a porção dela entre os antigos deuses Titãs: mas ela detém, tal como a divisão era no princípio desde o início, privilégios na terra, e nos céus, e nos mares. Também, por ser filha única, a deusa não recebe menos honras, mas ainda mais, porque Zeus a honra.”

Falando do campo, aqui não se justifica a adopção da tendência suburbana para o aproveitamento exaustivo de todo e qualquer canteiro e retalho de terreno para o plantio de hortícolas. Os cidadãos ecologicamente sensíveis, que têm quintais em redor das suas moradias, têm vindo a optar por esta alternativa, em substituição do relvado mais conservador, que é exigente em cuidados e que consome os recursos hídricos, sem índice de produtividade ou qualquer outro propósito que não seja ornamental. Acresce o facto de que a maioria das pessoas não sabe distinguir entre grama e relva.

A tudo se chama relvado, em vez de gramado, mas a relva mais resistente precisa de menos rega e manutenção. Nada tem a ver com os suaves filamentos que crescem individualizados, na turfa dos jardins citadinos e nos talhões atapetados das moradias suburbanas. É densa, com longos tentáculos que se espalham e cruzam, criando uma malha sobre a terra. Essa característica permite-lhe manter a humidade do subsolo junto às raízes. Requer apenas dois a três cortes mecânicos por ano, e consegue regenerar-se sem recurso a qualquer fertilizante químico nefasto, mesmo depois da canícula estival. Outra qualidade é resistir às toupeiras e à passagem dos possantes javalis selvagens, que têm vindo a aumentar em número e voracidade. É perfeito na sua imperfeição, sendo compensado por uma miscelânea de ervas-daninhas e flores silvestres que ajudam a disfarçar as áreas descobertas, que de outra forma se transformariam em poeira ou lama argilosa. Para regas ocasionais, recorremos a água de furo próprio.

Ao contrário de locais milimetricamente planeados por paisagistas, como os jardins, as quintas, e as florestas de Sintra, onde passei grande parte da infância e adolescência, as regiões rurais não foram idealizadas para parecerem selvagens. Por aqui, o arvoredo não é uma mescla exótica, mantida por um microclima e ameaçada por pragas de acácias e eucaliptos. As árvores e outras espécies endémicas disseminaram-se de forma orgânica e mesmo as nossas árvores de fruto proliferaram mais ou menos a seu bel-prazer, nos combros e junto às veredas.

As vedações nos limites da propriedade não são muros estanques, mas antes uma conjugação de rede de malha grande com a sebe de escallonia rubra e marmeleiros. Permitem a circulação dos coelhos, raposas, furões, gatos, ratos do campo e de todos répteis. Para além disso, oferecem abrigo fresco aos pardais, piscos-de-peito-ruivo, melros, mochos, perdizes, gaios, rolas e tantos outros, incluindo muitas espécies migratórias. Os milhafres preferem fazer os seus ninhos nos cedros.

Junto ao portão, à casa e à cascata sazonal, crescem os enormes alecrins onde as abelhas vêm refastelar-se e as borboletas expandem as suas asas. Os morcegos abrigam-se nas sombras frescas, entre as grandes pedras dos muros de sustentação. A cadeia alimentar está quase completa, a não ser pela ausência de cervídeos e dos mais emblemáticos predadores carnívoros, como o lobo e o lince. Espraiando o olhar, alcançamos as hortas, o poço, e os campos de cereais, separados pelos antiquíssimos regueiros.

Agora remeto para um autor americano, que é “pagão”, porque o meu tom é demasiado documental e assemelha-se ao Diário Rural de uma Senhora, no original The Country Diary of an Edwardian Lady, de Edith Holden.

Conforme o académico de Estudos Pagãos da Academia Americana de Religião, Chas. S. Clifton, escreveu no seu brilhante texto Nature Religion for Real (GNOSIS 48, Summer 1998), é essencial conhecermos o nosso meio ambiente, a nossa “bio-região”. Se possível, deveríamos tentar uma abordagem científica, que os “pagãos” modernos geralmente rejeitam ou associam a outras formas de aquisição de conhecimento. Afinal, é sabido que o Paganismo é sobretudo um fenómeno urbano e suburbano, e é a esses aspirantes, que idealizam uma vivência rural, que o apelo se destina.

Aos cidadãos ecologicamente sensíveis, que adoptaram o modelo “xamânico” e efémero de vivenciar a natureza, em formato de retiro do quotidiano mais habitual. Recorrem à locação e a abrigos amovíveis, sintéticos e impermeáveis, que podem ser transferidos para qualquer lugar. É uma tentativa de contornar a falta de terreno próprio e de uma round house de pedra e telhado de colmo, que perdura ao longo de gerações, permitindo o vínculo com o genius loci.

Chas Clifton propõe-nos o questionário “Where You At?”, em português ”Onde Estás?”, referindo que ele mesmo não teria conseguido responder a todas as questões sem lhes dedicar algum tempo, reflexão e pesquisa.

Onde Estás?

1 . Localize a água que bebe da precipitação até à torneira.

2 . Que tipo de solo é predominante neste lugar? Que classificação tem?

3 . Identifique cinco plantas nativas comestíveis que existam na sua região e a estação(ões) em que estão disponíveis.

4 . Quanto dura a estação de crescimento?

5 . Qual foi a precipitação total na sua área no ano passado?

6 . Identifique cinco aves que vivam na sua área. Quais são aves migratórias e quais e quais são as residentes?

7 . Qual foi o uso dado à terra pelos humanos nos últimos dois séculos?

8 . Qual é o último local para onde vai o seu lixo?

9 . De que direcção vêm as tempestades invernais na sua região?

10 . Que evento/processo geológico primário influenciou o relevo da terra onde vive?

11 . Que espécies se extinguiram na sua área?

12 . Quando é a brama dos veados na sua região, e quando é que as crias nascem?

13 . Que flor silvestre floresce primeiro e de forma consistente onde vive?

14 . Identifique cinco erva na sua área. Alguma delas é nativa?

15 . Quais são os principais grupos de plantas na sua região?

16 . Há quanto tempo é que a lua esteve cheia?

17 . Que tipo de energia usa mais? De onde vem?

18 . Onde se situa a área “selvagem” na sua bio-região?

19 . Qual é a principal fonte de poluição?

20 . Quais são os principais sons “naturais” de que tem consciência em qualquer mês ou estação particular (diga qual)?

Créditos: Margens da barragem do Alto Cávado, Montalegre, no Alto Barroso. © All Rights Reserved.

Para ler mais…

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close