O Ogham, ou alfabeto ogâmico, só ocorreu nas Ilhas Britânicas.
Existem cerca de quatro centenas de Ogham stones, pedras com inscrições que datam principalmente dos séculos V e VI, sendo as mais antigas do início do século IV da nossa era e as mais recentes do século VII. Algumas pedras, menires, ou seja, “pedras longas”, poderão ser muito anteriores aos entalhes. A maioria encontra-se no sul e, em maior densidade, no sudoeste da Éire, na península de Dingle, County Kerry. De resto, elas existem nos locais onde os gaélicos se fixaram, aquando da ressurgência céltica, que aconteceu a partir do século III e, com mais expressão, durante a época de decadência da presença romana na Grã-Bretanha, no final do século IV e ao longo do século V. Foram encontradas na Ilha de Man, em Gales, na Cornualha, em Devon, e em Hampshire, tendo sido a Silchester Ogham stone o exemplar encontrado mais a oriente e o único a leste do rio Severn.
As Ogham stones que existem na Escócia representam formas das linguagens picta e nórdica arcaica, enquanto quase todas as outras são em irlandês arcaico, Primitive Irish, que foi o gaélico mais primitivo alguma vez registado na forma escrita e que antecedeu o irlandês antigo, Old Irish. A diferença incontornável entre estes dois estágios do gaélico é a inicial inexistência da letra P, que nas línguas celta-P substituiu o Q, característico da família de línguas celta-Q. As línguas celta-P desenvolveram-se, ao que tudo indica, a partir do primeiro milénio antes da Era Comum, na Europa Central. Alastraram para oeste, até uma vasta região do ocidente continental, vulgarmente designada pelo termo romano Gália. Não chegaram à Éire nem às regiões da presença celta na Península Ibérica. Alguns exemplares de Ogham stones do sul da Éire, também são exemplos de representações da linguagem picta e existiram algumas adaptações tardias ao latim.
O alfabeto Ogham é composto por vinte caracteres, tendo sido posteriormente adicionadas outras cinco letras. Cada um consiste em traços oblíquos ou horizontais, em número de um a cinco, organizados quer na transversal quer de um lado ou de outro de um traço vertical. Correspondem a sons que nem sempre são diretamente transferíveis para línguas modernas, mesmo sendo gaélicas. Alguns sons nunca foram estabelecidos com certeza, até porque o Ogham era uma forma de escrita muito volúvel ou evolutiva. Nunca esteve perfeitamente estabilizada numa forma definitiva, até ao momento em que deixou de ser usada, ao fim de cerca de quinhentos anos, ou seja, pelo final do primeiro milénio da Era Comum, quando só ocorria em manuscritos. É escrito e lido na vertical, no sentido ascendente.
Para além de pedras, existiram inscrições Ogham em pedaços de madeira, tendo o alfabeto sido usado, sobretudo, para escrever nomes, na forma possessiva, em pedras memoriais e delimitadoras de terrenos; mas, também, para indicar sepulturas, e para alguma forma de magia. Muitas Ogham stones existem na proximidade de círculos de pedra megalíticos, pré-históricos. Não foi corroborada associação ou correspondência entre os caracteres Ogham e o alfabeto rúnico usado nas Línguas Germânicas, embora a palavra runa exista nos dois sistemas. Em gaélico irlandês, rún significa “mistério, segredo; intenção, propósito, resolução; amor, querido”, de acordo com o respetivo contexto. Em galês rhin significa também “segredo, encanto, virtude”. Os registos alfabéticos similares a formas rúnicas que foram encontrados na região centro-leste da Península Ibérica, e que representariam uma forma escrita da linguagem celtibera, ou celtibérica, também não têm qualquer correlação com o alfabeto Ogham.
Quanto à popular associação com as árvores, que continua a ser promovida como um sistema ancestral de inúmeras correspondências, e que pode perfeitamente ser um recurso oracular, trata-se de uma extrapolação posterior ao período histórico das Ogham stones e não tem a ver com os druidas antigos. É facto que a palavra que designa os próprios caracteres, fid/feda, no singular e plural, significa “árvore” e que os nomes de alguns caracteres são, sem ambiguidades, relativos a árvores. Porém, esses são menos de metade do total de caracteres, o que não desencorajou uma autêntica tradição escolástica do tempo dos manuscritos, que insistia na ideia de que todos os nomes dos caracteres eram nomes de árvores.
Hoje em dia, existe uma prática moderna semelhante, que se estende a vários contextos geográficos, os quais não têm a ver com quaisquer vestígios históricos da presença do alfabeto Ogham nessas regiões. Os entusiastas estabelecem correspondências de acordo com as espécies que existem em cada lugar; seja na Irlanda e Grã-Bretanha, seja na Europa Ocidental, na Península Ibérica, e onde mais os internacionalmente apelidados de “Ogham geeks” pretendam. É largamente ignorado que, na mesma tradição escolástica do tempo dos manuscritos, para além da categoria de árvores, existem categorias para santos, cães, vacas, artes; ou seja, para além do Ogham das Árvores, haverá o Ogham dos Santos, o Ogham dos Cães, o Ogham das Vacas, o Ogham das Artes, entre outros. Tudo isto se afasta e nos afasta do contexto céltico original.
As línguas goidélicas insulares são as únicas com origem no alfabeto Ogham. Os idiomas célticos, geralmente designados por Línguas Celtas ou Célticas, foram falados por muitos dos meus antepassados, até ao século XVII. Eu não os domino, mas há mais de trinta anos que os escuto, em inúmeras canções.
As variantes regionais do gaélico são o gaélico escocês, o gaélico irlandês, e o gaélico manês. São só três. Não existem muitas, nem tal coisa como “gaélico bretão”, que é um perfeito equívoco e um oximoro, porque conjuga duas definições etnolinguísticas que se excluem mutuamente. Se é gaélico, não é bretão, e vice-versa. Também nunca existiu nenhum “proto-gaélico”. A família de línguas gaélicas inclui o irlandês primitivo, arcaico, médio, primeiro irlandês moderno (Early Modern Irish), gaélico clássico, e as três línguas gaélicas modernas.
[ Edit: refiro-me a conteúdos mencionados em “Super-vídeos” de ecomitologia.]
Em certo momento, antes de atingirem uma maior diferenciação, as línguas goidélicas foram muito idênticas ao grupo de línguas celta-P do ocidente continental, geralmente designadas “gaulês”, que se aproximava do britónico, mas que de forma nenhuma se restringia à península da Bretanha nem ao atual território francês. Na sua forma mais antiga, o proto-celta contemplava três géneros, sendo um deles neutro e os outros o masculino e o feminino, conforme herdado do sistema triplo proto-indo-europeu, que era baseado no sexo. Portanto, é errado afirmar que proto-celta não tinha definitivo de género.
Nenhuma dessas línguas continentais sobreviveu para além do fim do Império Romano, das conquistas germânicas e da cristianização. Nem a dos Gálatas resistiu à helenização. Em território ibérico, não existem quaisquer indícios linguísticos da existência de dialetos de origem gaélica. As línguas celta-Q ou celta-K, foram o celtibero, o galaico e, discutivelmente, o lusitano. Eram aparentadas, dada a sua raiz goidélica, mas não derivaram nem estiveram na origem do gaélico histórico que, tal como o moderno, sempre foi celta insular. Portanto, não se pode assumir que tanto faz dizer goidélico, gaélico ou galaico, porque existem diferenças inequívocas. Quanto ao galaico-português, ou seja, o galego-português, não ficou na Ibéria como um resquício do “celtismo”. É muito mais tardio, de origem românica e não celta.
Usar o termo “celtismo” em relação a povos históricos é um absurdo, porque esta definição apenas se aplica a grupos atuais, surgidos do Nacionalismo Romântico, em particular da Celtic Revival, como o Pan-Celtismo. Tal como no caso do Druidismo, não existiu nenhum Celtismo na Antiguidade.
A propósito, o Mirandês não tem qualquer origem tribal, mas sim origem medieval, por confluência do asturo-leonês com o galaico-português, que também não teve origem tribal. Note-se que as palavras tribo e tribal são usadas por pessoas que as aplicam a tudo aquilo que não sabem como definir de outra forma. Aqueles são termos altamente permissivos e o preconceito erudito europeu deu lugar à identificação pagã, ou de qualquer grupo alternativo ou marginal ao mainstream, como sendo “a tribo”. Sobretudo se evoca um certo passado longínquo, pouco conhecido ou idealizado e tido como preferencial a qualquer realidade contemporânea. Segundo Françoise Le Roux e Christian-J. Guyonvarc’h, em A Civilização Celta, 1990, e A Sociedade Celta, 1991, Publicações Europa-América:
«Por não se terem compreendido as razões da ausência de um grande Estado céltico unificado, transferiu-se este esbordoamento político para o domínio religioso. E como a estrutura social não foi melhor compreendida, reduziu-se tudo ao nível tribal mais elementar.» (pág. 102, A Civilização Celta)
«…os Gauleses têm sido tratados ou considerados como um povo, não somente sem Estado, mas sem sociedade claramente constituida. Este facto verifica-se logo ao nível do vocabulário, quando JULLIAN, ou mesmo HUBERT, se enleiam numa terminologia sociológica imprecisa cuja principal palavra-chave é a «tribo», apreciação lexical pejorativa ou depreciativa que engloba os Gauleses – e a fortiori todos os Celtas – sobre o mesmo plano que os aborígenes da Austrália ou de África, com todo o desprezo que os Europeus são capazes de ter para com as sociedades que não estão organizadas em Estados (ler-se-á a este respeito o artigo, muito documentado, de B. G. SCOTT «Tribes and Tribalism in Early Ireland», em Ogam 22-25, 1970-1973, pp. 197-208).» (pág. 60, A Sociedade Celta)
O bretão continental evoluiu do britónico insular, que é uma língua celta-P, introduzida na Armórica por migrantes da vizinha Grã-Bretanha. Do britónico derivaram o britónico comum e o picto, o britónico ocidental e o britónico do sudoeste, o cúmbrio, o galês, o córnico e o bretão, arcaicos, médios e modernos. Também existem derivações recentes dos dois ramos insulares, como o neo-manês, o irlandês da Gronelândia, o gaélico canadiano, o galês da Patagónia e o córnico revivalista. É interessante que na Ilha de Man a língua original tenha sido britónica, passando a ser goidélica, depois da migração de gaélicos irlandeses, no século V.
É improvável que tenha acontecido algo do género na Península Ibérica, diretamente a partir da Éire. Existem apenas topónimos e teónimos de origem proto-celta, comuns a várias línguas celtas, e exemplos de influências irlandesas da Era Cristã no folclore do noroeste peninsular. Sobretudo, de séculos recentes, em particular na raia do Barroso. Muito posteriores à evolução e à extinção das línguas celtas peninsulares, que não subsistiram para além do período pré-romano. Naturalmente, os gaélicos chegados ao noroeste peninsular, sobretudo os regimentos e os migrantes, refugiados da guerra, do genocídio e da perseguição religiosa, a partir do século XVII, falavam a sua língua materna, mas esse é um contexto bem diferenciado e muito transitório.
Eu não me apoiaria nesse aspeto para fundamentar nenhuma teoria. Não há só uma forma correta de dizer cada palavra, mas sim várias, dependendo da região. Sempre tal foi verdade, dentro da mesma ilha e do mesmo idioma celta, quanto mais no vasto contexto insular e intercéltico. Existem ótimos recursos, criados por falantes de gaélico irlandês, para quem o idioma é a língua materna, onde podemos escutar as pronúncias de quaisquer palavras gaélicas. Podem diferenciar-se bastante, dependendo dos dialetos, como o do Ulster, o de Connacht, ou de Munster. Recorro com frequência ao teanglann, Irish Pronunciation Database, Dictionary and Language Library, e ao forvo, The Pronunciation Dictionary.

É interessante perceber que, nos idiomas célticos, não existe nenhum termo específico para designar as festas religiosas. As palavras féil, gwyl, e gouel, do irlandês, galês e bretão, foram adotadas a partir do latim vigilia e só designam as festas de santos, segundo as datas do calendário litúrgico cristão. Para as festas profanas existe feasta em irlandês e fest em bretão, que derivam diretamente do inglês médio e do francês feste. Quanto aos galeses, dizem gwledd, que significa banquete. No caso dos nomes dos festivais puramente celtas, aqueles que conhecemos e adotamos no presente são relativos apenas à cultura celta da Éire.
Segundo as minhas excelentes fontes de História da Religião e de Filologia, especializada em idiomas celtas e irlandês arcaico, as quatro festas canónicas irlandesas enumeradas e descritas nos textos medievais, – Samhain, Imbolc, Beltane, e Lughnasadh -, não possuem outros nomes, nem os seus nomes são transferíveis para nenhuma festividade continental. Em diferentes latitudes, não sabemos quantos festivais eram celebrados, porque dependia da divisão das estações, que devido à variação do clima, tanto podiam ser quatro, como três, ou apenas duas. Quanto a outras regiões insulares, apenas a influência irlandesa direta, bastante tardia, poderá justificar a adoção daqueles nomes. Não se conhecem nomes celtas para os pontos médios das estações nem se incluem nas festas celtas as celebrações modernas desses momentos.
Um facto incontornável das cerimónias celtas, que exaltava as funções druídicas de administração da Lei, era a realização de assembleias legais e jurídicas, que decorriam a par dos aspetos religiosos. Era nessas ocasiões que a legislação era elaborada ou revista, o que demonstrava que ninguém estava acima dos sacerdotes celtas e que nem um grande rei, que pertencia sempre à classe guerreira, era livre de fazer o que quisesse.
Na Irlanda, a cerimónia de Samhain, Samain ou Samonios, em gaulês, conforme o calendário de Coligny, tem no seu nome apenas um significado etimológico, que é o de Reunião. Sobressaía claramente em relação às outras. Era de caráter coletivo e de presença obrigatória, sob pena de morte ou outra forma de punição grave. O ponto alto da celebração era o banquete, onde tinham lugar todas as classes da sociedade; os druidas, a flaith ou nobreza guerreira e o povo. É a celebração total e trifuncional. Era a concórdia, eternizada no Ciclo de Ulster da Mitologia Irlandesa como o festim anual de Samaem, que reunia os reis rivais e desarmados na Croebderg, a Divisão Vermelha das três casas do rei Conchobar.
Samhain assinalava o início da fase sombria e a suspensão da atividade militar, marcando o momento de viragem para o novo ano celta. Era um tempo fora do tempo, que não pertencia ao ano que terminava nem ao que começava. Assim, tinha uma dimensão eternal e garantia a continuidade, ininterrupta, dos acontecimentos, tanto no mito como no quotidiano. Assim se explica que nesta época o Sidhe se entreabra às gentes de coração puro e convide alguns a visitar e até a permanecer no Reino da Fidalguia, que tem a possibilidade de influenciar as atividades, os empreendimentos, e a vida humana, em geral.
A celebração seguinte, Imbolc, era do povo, da terceira função, produtora e artesanal, que assinalava a Lustração, depois de todas as impurezas do Inverno. Muitas tentativas etimológicas têm sido sugeridas, mas não são verificáveis. Tem aspetos em comum com as purificações rituais de Fébrua, do calendário latino. Esta comemoração popular foi pouco registada em texto, porque o folclore de Santa Brígida, que foi associada a este momento como a parteira da Virgem, a substituiu rapidamente.
Beltane era uma celebração com forte cariz sacerdotal, que assinalava o regresso da luz, da fase clara e o retomar da atividade guerreira. Significa o Fogo de Bel e a associação ao gado taurino e ao seu correspondente celestial, que domina os céus por essa altura, é incontornável. Apesar de não existir nenhuma correspondência continental comprovada, as manifestações e o folclore de Maio são diversas e sempre foram de difícil cristianização.
A festa do rei, como o centro da sociedade, senhor da abundância e provedor do reino, é Lugnasad ou Lughnasadh. A Assembleia de Lugh, deus que medeia os aspetos celestes e os inferiores, que está fora das classes e em todas elas, com aspetos sacerdotais e guerreiros, bastante sombrios, mas também técnicos, enquanto artesão do metal e da madeira. Aquele que César descreveu como “o inventor de todas as artes”. Esta celebração não tinha caráter agrário, embora essa tenha sido a associação que lhe restou, dado o seu lugar no tempo das colheitas. Os jogos, os concursos e desafios de poesia, decorriam a par de assembleias com vários propósitos, conforme sugerido pelo nome do deus.
Créditos: Nikolai Astrup (1880 – 1928); “Bonfire celebrating Midsummer Night“, óleo sobre papel, 1912 – 1926; National Museum of Art, Architecture and Design. ©Ø

