Reverência à Herança Céltica

A reverência pelo legado ancestral, material e imaterial, tal como ele é, com os seus factos, as suas incógnitas e incongruências, são pedras basilares da minha conduta. Estes valores, que me norteiam, não fazem de mim derrotista nem revivalista, presa ao passado ou perdida na vã utopia de o recriar.

Respeito os silêncios que a oralidade dos druidas e mais antepassados nos deixou. Eu não elaboro conjecturas infundadas e divagações especulativas acerca do passado celta, neolítico e mais arcaico. O meu foco está em conhecer cada vez melhor os meus antepassados insulares, Celtas e mais ancestrais.

A Tradição Céltica da Antiguidade não se verga a entrismos ideológicos nem a complexos messiânicos de salvação do mundo e das almas. Os rótulos antropológicos não servem para definir os Celtas do passado, nem para reunir os célticos do presente, que têm diversas religiões, espiritualidades, convicções sociais, orientações políticas e apolíticas.

A recepção de transmissões subtis e o exercício da Alta Imaginação não têm a ver com a leviandade de atribuir palavras, pensamentos e conceitos aos antigos. Nem de neles projectar expectativas, inconformismos, ideais, utopias, crenças, devoções e práticas, em busca de fundamentação. As heranças célticas norte-atlânticas não podem ser traduzidas por terminologia equívoca, como “xamanismo”, que o movimento New Age e o Paganismo aplicam a práticas novas e reabilitadas.

Reclamar ancestralidades não deve servir para dilapidar heranças. A intelectualidade, a sensibilidade, e a espiritualidade verdadeiramente livres não usurpam nem se apropriam de nada. Ninguém tem legitimidade para deturpar, manipular, ou erodir uma herança espiritual e étnica, de acordo com as suas agendas, ainda que dela descenda. Afinal, as formas mais insidiosas de apropriação cultural e espiritual vêm de dentro da própria etnicidade.

O resgate das heranças ancestrais deve ser fundado em temperança e na escuta de genuínas transmissões espirituais, mas também é preciso ter a humildade e a delicadeza de estudar, com critério e objetividade. Devemos aceitar os nossos ancestrais por tudo aquilo que eles foram e não os idealizarmos. Negar qualquer um dos seus feitos, ações ou traços de caráter, quer os consideremos benéficos ou perniciosos, seria uma ofensa imperdoável e uma injustiça.

A propósito do substantivo Celta, é bom referir que o maior desafio é sempre definir de quem estamos a falar. Alguma contextualização é sempre bem-vinda. Há que lembrar que Celtae, Celtici são designações usadas pelos Romanos para se referirem aos povos que encontraram a norte dos Alpes e na Península Ibéria, frequentemente servindo também para definir os Germanos, antes de César. Não era o que esses muitos e distintos povos se chamavam entre si.

Os Celtas estão mortos e a sua tradição religiosa extinguiu-se. Não é possível resgatar uma religião ou uma determinada espiritualidade ancestral que nem sabemos se de facto existiu de uma forma sequer aproximada ao que atualmente nos é proposto por personalidades do Paganismo, ordens druídicas, irmandades sacerdotais, e novos movimentos mais ou menos religiosos. O que existe é um corpus mitológico na forma de textos que, a posteriori, concederam à Tradição Céltica um lugar no tempo histórico e marcaram o início da degradação mitológica e religiosa. O que significa que ela é uma tradição morta. Compreender e aceitar isto não deve desencorajar-nos de conhecermos estes povos Indo-Europeus, tanto quanto possível, em vez de nos refugiarmos em idealizações.

Quando conhecemos bem as nossas raízes, estamos à partida mais aptos a abordar a história, os costumes e as peculiaridades das gentes da região, mas esta ligação à terra não dispensa o estudo. Mesmo que não seja em meio académico, ou melhor, principalmente se estamos fora dessa esfera, rodeados de propostas literárias e audiovisuais acerca do assunto que nos interessa conhecer, temos de ser criteriosos na seleção daquilo que tomamos por referências.

O problema não é lermos e vermos de tudo, mas sermos capazes de perceber o que foi concebido com um objectivo comercial, de propaganda nacionalista, ou de promoção pessoal, que pouco ou nada tem a ver com o legado que procuramos entender. A maior parte dos conteúdos e propostas formativas mais ou menos informais, são embrulhados num marketing sedutor e produzidos por pessoas que ascendem ao estatuto de referências, sem que haja justificação para isso.

De facto, sempre que abordo a influência céltica na cultura popular, acabo por escrever apenas acerca de aspectos e fenómenos que não são célticos, exactamente porque é preciso expô-los. É inevitável depararmo-nos com esta realidade quando nos propomos compreender o mais possível as nossas origens, em particular os antepassados célticos e os mais ancestrais, que eles mesmos terão encontrado quando colonizaram a Europa.

No meu caso, desde muito jovem, tomei contacto com as edições portuguesas de alguns dos livros de Françoise Le Roux e Christian-J. Guyonvarc’h, que têm os títulos, em francês, La Civilisation Céltique e La Société Celtique. Também com a edição espanhola de Les Druides. Dos mesmos autores existem vários artigos em publicações académicas e especializadas.

É claro que aquelas exposições escritas, um tanto secas, acerca dos Celtas, não são muito estimulantes, do ponto-de-vista de alguém como eu, que sempre priorizou a Imaginação Mágica. No entanto, permitiram-me orientar todas as minhas leituras e o meu consumo de conteúdos, pondo-me a salvo da tentação de acreditar demasiado na Ficção e em confabulações de quem usa de sentimentalismo e o sensacionalismo, misturando um passado idealizado e deturpado com enredos modernos e intentos pessoais, para envolver o seu público. Esta é a marca de intelectualidade dos arteiros, a quem não falta a eloquência necessária para produzir nuvens de palavras, das quais chove presunção, emotividade e escapismo, para desencorajar qualquer questionamento.

[ Edit: remeto para “Super Vídeos” de eco-mitologia, de 2 de Agosto de 2026.]

Depois de sete anos como aluna de História da Arte, durante um curso tecnológico e uma licenciatura de quatro anos no âmbito das Artes Visuais, dei largas à paixão pela Arte Neolítica e da Arte Celta La Tène, em particular da Éire, de Ynys Môn e das Lake Villages, perto de Glastonbury, nos Levels de Somerset. Estas aldeias lacustres eram reminiscentes do povoado onde surgiu a cultura La Tène, nas orlas do lago Neuchâtel, na Suiça. Eu foquei-me nas Imagens Mágicas e na Imaginação Mágica, mais do que em qualquer aspecto arqueológico.

A Arte é um recurso vibrante de conexão mágica, através da dimensão espaçotemporal. Deve ser reverenciada e referenciada, sem ser colocada fora de contexto. Nem mesmo os irlandeses devem usar os seus símbolos ancestrais sem lhes renderem a devida homenagem. É através de artefactos mitológicos que tomamos conhecimento dos símbolos que estão na essência dos Mistérios.

Bann Disc, bronze, estilo La Tène Insular, final da Idade do Ferro, encontrado em Março de 1939, na margem leste do rio Bann, Loughan Island, logo acima do cemitério, Condado de Derry, Irlanda do Norte; exposto no Ulster Museum, Belfast.©Ø.

Os Celtas da Éire legaram-nos um dos mais refinados e tardios exemplos da presença e evolução do estilo artístico La Tène Insular. É um enigma. Trata-se de um pequeno disco de metal, com aves estilizadas em triskle ou tríscele céltico, da era pré-cristã, da Idade do Ferro, que foi encontrado em Loughan Island, Co. Derry. Está patente no Ulster Museum, em Belfast.

É adaptada a inúmeros logótipos, joalharia e tatuagens, mas quase sempre os seus importantes elementos simbólicos ficam totalmente obliterados, sem que se faça justiça ao original nem qualquer referência ao contexto cultural do qual é retirado, se é que quem o aplica nas suas peças promocionais sabe do que se trata. Assemelha-se a um típico exemplo de apropriação. A mais conhecida e uma das melhores adaptações deste artefacto talvez seja a reprodução linear da Coleraine Historical Society, que adequadamente deu o nome The Bann Disc à sua célebre revista, acerca da herança local.

O rio Bann, na margem leste do qual foi encontrado o pequeno disco, logo acima do Loughan Graveyard, deve o seu nome a An Banna, que é outra deusa da Tuatha Dé Danann. Em gaélico, ban e bean querem dizer mulher, como em banfháidh ou bean feasa e banshee ou bean nighe.

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