Através do meu avô materno, herdei uma sensibilidade intrínseca. Filho do Larouco, entre muitas outras coisas, ele sabia mover pedras que chegavam a pesar várias vezes o peso dele, graças a técnicas arcaicas, à percepção apurada e ao cálculo intuitivo de como iriam girar e assentar. O meu avô deixou-me exemplos acabados da aptidão dele, na propriedade que é o meu lar, perto de Lisboa. Em criança, eu vi-o fazer isso. Não tinha a ver só com a estatura física nem a força braçal. É uma sabedoria ancestral!
Eu não sei mover pedras enormes, mas sou atraída por elas e, por vezes, pressinto quando alguma pedra está prestes a soltar-se do seu leito e a rolar encosta abaixo. Como em tudo o que envolve a minha sensitividade medianímica, constatar cada vez que isto acontece é resgatar a consciência de um instinto primevo e do seu imenso potencial. Não foi por acaso que as Grandes Pedras britânicas surgiram na minha vida. Estive em Avebury, West Kennett and The Avenue, Stanton Drew, The Hurlers, e no centro de Stonehenge, entre muitas outras, aos vinte e um anos, quando me tornei adulta. Foi parte da minha iniciação.
As casas antigas…

Tenho um interesse muito particular por casas antigas de pedra, que pude vivenciar desde a infância, nas aldeias nortenhas, em casas de turismo rural, e na Grã-Bretanha. Sobretudo, em Lockyer’s Farmhouse, em Compton Dundon, perto de Glastonbury, Somerset. É um Listed Building Grade II, com declarado interesse histórico. Nos sete acres da propriedade funciona o premiado EarthSpirit Retreat & Centre. A quinta dos séculos XVI e XVII inclui a casa familiar com telhado de colmo, que conheci por dentro, e um celeiro do período medieval tardio, com madeiramento de carvalho, convertido em Main Hall e Apple Loft, o alojamento com ambiente de casa na árvore, onde sempre fiquei instalada.
A casa saloia de Sintra…

No dia do meu quadragésimo aniversário, em 2019, com a minha mãe e o meu filho Artur, de ano e meio, visitei uma casa tradicional, parcialmente renovada, que estava para venda, na região saloia do Concelho de Sintra, não muito longe do conjunto megalítico de Barreira. Tinha uma grande arrecadação e um antigo corpo central a céu aberto, com a ambiência de um pátio medieval. Era tudo feito de pedra pequena e irregular. O logradouro permitia uma vista panorâmica para a serra. Prestes a engravidar novamente, fiz um oferta nesse mesmo dia e vim a adquiri-la no mês seguinte, para lazer esporádico. Anos depois, investi meios e esforço pessoal hercúleo na estabilização e harmonização da ala antiga, com materiais selecionados, que respeitam as dinâmicas da pedra.


Implicou algum risco físico, estudo, metodologias, e muita capacidade de superação. Sobretudo, sendo eu uma mulher de compleição mediana e delicada, com mãos de artista, que desde criança aprendeu ballet e, mais tarde, bharatanatyam. Eu sempre gostei de treinar com pesos, mas nada nos prepara para isto e eu estava com algumas fragilidades resultantes das gravidezes. A minha vantagem era estar habituada a ter terreno e fazer tarefas de jardinagem, poda e corte de ramos. O desafio envolvia várias ferramentas elétricas profissionais, que comprei para o efeito, e um andaime semi-profissional que eu montava, desmontava e arrumava na grande arrecadação.

Foi perfeitamente iniciático! Um trabalho solitário de limpeza de cimentos e gesso velho, de demolição de um pequeno anexo de tijolo, de gestão de entulho, e de rejunte de pedras, que exigia muita paciência e que poucos homens contratados aceitariam fazer. No final de cada longo dia que eu reservava para aquele desafio, eu regressava a casa e amamentava o meu filho mais novo. Nunca lá passei uma noite! Devido a razões funcionais, mas também a fenómenos subtis que não me agradaram. Quatro anos depois, a reabilitação cessou, por bom-senso. O imóvel nunca se adequaria às necessidades familiares e mantinha-me longe da serra. A venda recompensadora reconduziu-me à vila de Sintra e trouxe-me paz de espírito.
O apelo das montanhas…
Um ano mais tarde, rumei a uma pequena aldeia de Montalegre, no limiar do Parque Nacional da Peneda-Gerês, para visitar uma casa de blocos de granito e sobrado de carvalho centenário, com outra ala mais recente. Tanto quanto sei, o desejo de reabilitar casas de aldeia, ou apenas ruínas, é frequente entre barrosões que migraram para a cidade, mas nem sempre o sonho é concretizável por quem as compra ou herda. Na minha infância, cedo conheci a aldeia dos meus antepassados, no Larouco, mas todos tinham saído de lá e vendido as casas, incluindo a dos meus bisavós.



Sem ninguém por lá, sempre recorremos aos alojamentos turísticos, o que é muito cómodo. No entanto, eu nunca tive aquela grande casa antiga, de família, onde pudesse ficar e isso feria o meu orgulho de barrosã. Apesar de não ser comparável, eu firmei um contrato com uma cláusula resolutiva e sinalizei a casa que estava para venda. Como é frequente em casas de aldeia vendidas por vários herdeiros emigrados, havia a necessidade de uma retificação de áreas, o que implicaria outras ações morosas e de desfecho incerto.
Graças à minha cautela e, acredito, aos meus ascendentes que intercederam para me aconselhar, depois de três meses de impasse, a compra não se concretizou. Da aventura ficaram as boas memórias da primeira viagem com os meus filhos ao Barroso, o nosso Reino Maravilhoso. Por fim, sei que não preciso de procurar vinculação aos locais das minhas raízes ancestrais e familiares, nem aos da minha infância e juventude, através das pedras de nenhuma casa. Isso só me fará sentir limitada e distante das ilhas d’além, que são parte intrínseca do meu ser. Estou segura das minhas Heranças e do meu profundo sentimento de pertença. É uma sabedoria muito libertadora!
Créditos: imagem de destaque, Castelo de montalegre, com vista para o Picoto e o Larouco, 2024. Andreia Silva de Morais ©
