Retiro e Bloqueios

Mensagem de madrugada

Em 2019, sob pretexto de rejeitar um pedido de publicação num grupo que ela co-administrava, Iris Lican Garcia abordou-me em privado, com uma mensagem de voz em dois trechos, que me foram enviados à 1:23, hora da madrugada, quando eu tinha o meu primeiro bebé de um ano, o Artur, para amamentar e cuidar. A Iris sabia disso, mas não teve qualquer consideração nem contemplações. Assim que eu vi a notificação, senti um arrepio pelas costas e nuca, que é uma das minhas manifestações sensitivas de alerta.

A Iris deveria ter dominado os seus impulsos, coibindo-se de gravar tudo o que lhe veio à mente e de me enviar um solilóquio moralizante, num tom de irritação mal-contida, apenas para dissertar amargamente acerca do que ela achava da minha pessoa, em vez de comentar construtivamente acerca daquilo que eu alguma vez escrevi. Porque foi isso que fez, à boleia do meu pedido de publicação! Depois de um seco “Olá Andreia…”, disse que o grupo não servia para “promover personalidades”. Esta é uma forma ofensiva de começar qualquer comunicação e eu não encaixo nessa designação.

O problema não é ter rejeitado o pedido de publicação. O meu pacífico texto, O lugar onde vivo é Território Sagrado, é acerca da natureza do meu lar e eu mencionei brevemente uma divindade da Antiguidade, que no caso foi Hécate, a propósito da raíz comum da palavra hectare. A justificação que a Iris me deu para rejeitar o post foi que aquele grupo não era sobre Paganismo. A Iris disse que havia membros de várias religiões e espiritualidades, muitas das quais sentiu necessidade de referir, numa cadência pausada, como se estivesse a ler uma lista que nunca mais acabaria. Pouco depois, eu desliguei a reprodução do áudio, como medida de autodefensa psíquica.

Grupo Guardiães da Terra

A minha resposta escrita foi curta, dizendo que não escutara a mensagem toda, que não iria ficar a escutar acusações, lamentando a interferência, e desejando boa sorte para uma causa que era de todos os membros daquele grupo. Eu retirei-me do grupo Guardiães da Terra (alterado para Teia da Terra), no qual tinha sido convidada a entrar, por Lila Nuit (Lila Moreira), exactamente a propósito da realização de um círculo para visualizar, por exemplo, “o Homem Verde, Deus Veado e a Deusa Mãe, Corça”. Ora, se isto não é Paganismo, eu não sei o que é!

A própria Iris publicou no grupo acerca do que aconteceu durante aquele círculo de Junho de 2017. Eu podia continuar a mencionar e a trazer aqui registos de outras publicações da Iris, como esta de 24 de Agosto de 2017, que ela levou diretamente do perfil pessoal para o grupo (dela). Afinal, os posts de uma moderadora ou co-administradora não estavam dependentes de nenhum pedido de publicação, nem eram filtrados por ninguém. Qual beata pagã em plena campanha anti-abraâmica, a Iris não teve receio nenhum de ferir as susceptibilidades dos membros que louvassem o que ela se atreveu a chamar de “divino distante e abstrato”, como se essa fé fosse incompatível com manifestações de louvor à “Mãe Floresta Viva”:

“A folhagem ou a Mãe Floresta Viva ( assim é denominada uma das faces da Deusa Druídica) pereceu, e é agora cinza.

(…)

Tempo de louvar de novo a Mãe Floresta Viva e não um divino distante e abstracto. Mas a Divindade Viva e Pulsante desta Vida Mãe de que somos parte.”

No entanto, em Julho de 2019, às tantas da madrugada, eu deveria ficar a saber que o grupo não é sobre Paganismo e que o meu texto era inapropriado e até podia incomodar membros de inúmeras religiões. Exactamente aquele grupo, dinamizado por várias pessoas, incluindo algumas “pagãs” fervorosas e amplamente conhecidas por promoverem eventos e conteúdos relativos aos Xamanismos e Paganismos. Claro, porque o grupo associativista é só acerca da defesa da “Mãe Terra”.

Puro nonsense.

De resto, Iris e Lila promoviam as suas iniciativas por vários meios e o marketing delas era bastante intensivo. O que não falta nos meus registos de email daquele tempo são convites para gostar de páginas, aderir a grupos, e participar em eventos criados, geridos e co-administrados por elas. A Iris, em particular, sempre difundiu o seu repertório relativo ao “eco-paganismo” por todos os meios possíveis e de forma nem sempre inofensiva, como no caso dos conteúdos perniciosos referidos nesta publicação.

Apenas dez dias depois de me ter enviado a mensagem, a Iris comentou de forma apreciativa uma interessante publicação de outra administradora do grupo Teia da Terra, apresentando um projeto pessoal, que referia o “animismo” e que tinha como elemento central um vídeo intitulado “Praising Life Through Death / Louvando a Vida pela Morte – Paganismo Nórdico“.

Outra partilha da Iris no grupo, em Agosto de 2019:

Centro e imersão

Segundo as palavras da Iris, aquilo que ela leu no meu texto ou no blogue foi encarado como “crítica” e “falta de humildade”. Aliás, diz repetidamente que eu deveria ter “mais humildade”. Não sei se foi porque no texto eu referi detalhes do entorno natural integrante do meu domicílio, em propriedade mista de um hectare, perto de Lisboa, ou por outro motivo. Nunca me disse exactamente a que isso se referia; um post ou um assunto em particular. Na mensagem só diz, “Eu não leio tudo o que escreves…”.

É óbvio que não gostou do que leu e, pensando no que eu escrevi ou na forma como escrevi um determinado texto no passado, se calhar ela tinha alguma razão para isso, mas nem sequer sei se ela o leu. O que me importa é o que eu escrevi. Eu não tenho problema em relembrar tudo o que, em dado momento, publiquei no blogue, mesmo que não faça mais sentido e eu pudesse ter optado por não me pronunciar impulsivamente, acerca de uma realidade que estava a acabar.

Durante uma breve e rara troca de comentários na thread da publicação dela do dia 10 de Outubro de 2017, a Iris escreveu uma elaborada comentária, em inglês (ver abaixo). Ela deu atenção ao meu comentário e esperava que eu não escrevesse mais nada, mas como eu fiz ainda outro comentário, ela acabou por se impacientar e escrever, em português, em jeito de fim de conversa, “fica com o que te serve e deixa o que não te serve”. Ou seja, “dismiss“. A publicação foi a seguinte e eu mesma apaguei os meus comentários e, consequentemente, essa segunda resposta terminante, que nem produziu notificação por email:

Aquela frase da Iris reavivou uma situação que eu calara completamente e foi o mote para o texto, “Retiro, o que me faz espécie”, escrito no dia 20 de Outubro de 2017, que pode ser lido, entre outros, neste registo da Wayback Machine. Nesse Outubro fazia um ano que eu tinha estado presente, com mais oito mulheres, numa imersão de fim-de-semana, intitulada “Sacred She of Dark and Wild“, co-organizada pelas duas amigas, Iris e Lila. Suspeito que o facto de eu não ter participado de todas as atividades, pode ter sido interpretado negativamente.

Eu estava no primeiro trimestre de gravidez, com as esperadas oscilações hormonais e, talvez por isso ou não, reagi àquela frase com um post no meu discreto blogue. O que escrevi teve a ver com a minha limitada experiência de “centros de retiros” portugueses e do local onde decorreu a imersão, o qual ia ser encerrado, por motivos que desconheço. Nunca foi feito nenhum esclarecimento público quanto à causa do encerramento, mas o que estava a acontecer tornou-se evidente, quando a Iris e a Lila começaram a anunciar no Facebook a venda de vários equipamentos, como uma cúpula geodésica e beliches, a perguntarem por casas para alugar, e a referirem as mudanças.

Numa das suas notas biográficas, a Iris referiu-se ao centro como sendo “a retreat center in nature“. A apresentação que em tempos esteve publicada acerca de Iris Lican na plataforma Goddess Temple Teachings, referia o centro com grande ênfase numérico:

“In Portugal Iris has been founder and has directed, for the past 14 years, a training center for ecology, therapy, art and spirituality having received thousands of students and teachers from all over the world.

Registo da Wayback Machine, Novembro, 2021.

Eu só fui a dois retiros em Portugal, em Setembro e Outubro de 2016. As minhas referências estão em Glastonbury e arredores, nos os 7 acres de EarthSpirit Retreat & Centre e na Chalice Hill House. Ler “a retreat center in nature” que teve capacidade para receber “thousands of students and teachers from all over the world” em atividades passadas, dá uma ideia bastante diferente da realidade da moradia alugada, a necessitar de reparações, com anexos, um yurt, uma cúpula geodésica, e um pequeno dormitório no espaço de garagem convertido, em cerca de 1500 m² de zona urbana habitacional do tipo II, na Rua dos Afoitos 3, da Praia das Maçãs, na freguesia de Colares. Nas imediações de dezenas de moradias e alguns prédios, numa área pontuada por hortas, pinheiros, canas e cactos, a boa distância volante do frondoso bosque serrano.

Senhora d’Azenha, Rua dos Afoitos 3, Praia das Maçãs, freguesia de Colares, 2016. Andreia Silva de Morais ©

O que eu escrevi no post correspondia à realidade. Em todo o caso, na sequência daquele texto abrupto de 2017, onde referi a frase que a Iris me tinha dirigido dias antes, faço questão de reconhecer alguns detalhes. A possibilidade de pernoitar no local, num espaço com seis beliches, um sofá, cadeiras, e um pequeno WC com um duche de cortina (toalheiro elétrico e desumidificador), que recebia até doze ou treze pessoas, era uma opção incluída no valor sliding-scale e era apresentada ao público que se inscrevia em “intensivos” ou “imersões”. Não era suposto ser um hostel nem um alojamento local de caráter turístico. As associações podem oferecer alojamentos pouco expressivos, isentos de licença turística, a sócios e participantes, para realização de atividades internas previstas nos seus estatutos.

Fizemos refeições frugais, preparadas pela facilitadora Lila, na cozinha doméstica, inserida em ambiente privativo e familiar. Foram servidas num espaço com forno a lenha, mesa, cadeiras, louça, talheres, bancadas e lavatório com produtos de limpeza, para os participantes fazerem as lavagens, da melhor forma possível. Pernoitámos no espaço de garagem envidraçado convertido em dormitório. Não sei exactamente qual era utilização-tipo do lugar, nem quais as medidas contra incêndios aplicáveis, mas posso calcular. Nem me recordo de ver qualquer equipamento, como extintores e sinalização luminosa de saída, que é o requisito mínimo do qual nenhuma instalação para utilização coletiva está isenta, seja turística ou não. Muito menos existia no yurt, onde a salamandra a lenha, que fumava bastante para o interior, foi acesa logo no início, para a primeira atividade.

De facto, aquele local funcionou intensamente, durante alguns anos, como uma espécie de “centro de retiros”, embora essa categoria não exista em Portugal e não dispense um enquadramento legal. Há uma imagem do dormitório no registo do antigo website da associação. Para que ninguém que não conheceu o local fique com uma ideia errada, deixo o meu apontamento fotográfico, nunca antes publicado, que foi feito para memória pessoal do lugar onde decorreu a vivência coletiva, com o cuidado de não invadir a privacidade de todas. O beliche à entrada da porta foi aquele em que eu pernoitei.

Eu interesso-me por casas, frequentei o curso de Design de Interiores, com tudo o que isso implica. Valorizo a Arte, a Estética. Sou uma pessoa prática, aprecio a simplicidade e as instalações cuidadas. Para mim, os edifícios, jardins e todo o entorno físico e energético onde decorre uma atividade em que participo são parte relevante da minha vivência e impactam o meu estado de espírito.

Eu não estou só habituada a unidades hoteleiras e cottages&barns do século XVII, como existe em EarthSpirit e que refiro no meu texto Germinar sementes de comunidade, de 27 de Outubro de 2017 (também registado na Wayback Machine). Tive experiências breves, por absoluta necessidade, em Backpackers a abarrotar, em Penzance e Glastonbury, que contei em Vivências iniciáticas na Grã-Bretanha. Nem vale a pena mencionar outros destinos.

Para dar um exemplo, exactamente no mesmo entorno, eu morei em Rio de Mouro e cresci nas imediações de Sintra. As primeira férias da minha infância, em 1982-83, foram passadas na Praia das Maçãs, na pitoresca Quintinha do Pedro, na Estrada da Tomadia, bem pertinho da Rua dos Afoitos, entre pessoas humildes e generosas, verdadeiras saloias que vendiam bolos na praia e passaram a vida inteira naquela localidade, antes de qualquer febre imobiliária e gentrificação da vizinhança.

Eram outros tempos, havia muito senso-comum, mas total ausência de vistorias contra incêndios, normas estritas de segurança, condições de higiene, saúde pública, e urbanismo, que constam do Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU) e do Regulamento de Segurança Contra Incêndios em Edifícios (SCIE). Fotografei a Quintinha do Pedro, no último dia da imersão, quando me esgueirei de manhã muito cedo, até ao pequeno supermercado Camarão, para espairecer de um estado de irritação crescente e comprar comida para o pequeno-almoço, depois de mais uma noite sem dormir.

Amanhecer junto à praia, domingo 9 de Outubro 2016. Durante a imersão na Associação Senhora d’Azenha, Praia das Maçãs. Andreia Silva de Morais ©

Naquele momento, eu estive para me ir embora mais cedo. No dia anterior, tínhamos conduzido e caminhado até às alturas da serra, ao local da famosa Pedra Urso, que eu tão bem conheço desde criança, para actividades que envolveram tambores e defumações com mechas. Voltámos depois do anoitecer, para mais um círculo no yurt, antes de finalmente comermos alguma coisa. De madrugada, eu sentia-me exaurida e com os olhos congestionados, a arder imenso por causa dos fumos. Sabia que seria quase impossível para mim participar na “saúna sagrada medicinal”, à qual acabei por assistir, junto da valente fogueira que foi ateada no quintal da moradia, para aquecer as pedras da sauna, naquele dia quente de 9 de Outubro (Praia das Maçãs: mínima 14º C, máxima 27º C), numa área urbana habitacional, em pleno Parque Natural Sintra-Cascais, onde em qualquer época do ano não se espera mais do que moradores a fazerem grelhados e a evitarem meter-se em assados.

Apesar do Regulamento Municipal do Uso de Fogo e Limpeza de Terrenos só ter surgido em 2019, no ano de 2016 já não era permitido fazer uma fogueira livremente no quintal de uma moradia, numa área urbana do Concelho de Sintra. O fogo só era permitido para a confecção imediata de alimentos, apenas em equipamentos adequados, em estruturas fixas, como grelhadores. Só podiam ser feitas fogueiras se cumprisse critérios muito restritos de licenciamento ou exceções específicas para a confecção de alimentos, o que raramente era concedido para fins particulares em zonas urbanas. A autarquia de Sintra apenas emitia este tipo de licenças para eventos tradicionais, como fogueiras de Natal ou dos Santos Populares.

A legislação aplicável na altura (regida a nível nacional pelo Decreto-Lei n.º 310/2002 e pelo Decreto-Lei n.º 124/2006), impunha regras. O artigo 39.º do Decreto-Lei n.º 310/2002 proibia expressamente acender fogueiras a menos de 30 metros de quaisquer construções, devido ao elevado risco de danos em instalações elétricas, explosão de depósitos de gaz, propagação do fogo através de materiais inflamáveis, que podem ter décadas, estar obsoletos e desfasados das normas atuais. Numa moradia em área urbana, por muito grande que seja o quintal, é quase impossível cumprir esta distância mínima de segurança em relação à própria casa ou às habitações vizinhas.

Conforme me recordo, naquele ano de 2016, em particular, devido às condições meteorológicas excepcionais de calor e seca, o Governo publicou uma extensão extraordinária do Período Crítico de Incêndios, até 15 de Outubro. Isto foi amplamente divulgado, em todos os meios nacionais de Comunicação Social. Era preciso estar a viver debaixo de um pedregulho para não saber disto.

Acender uma fogueira ou fazer uma queima de resíduos no quintal de uma habitação na Praia das Maçãs violava as restrições legais em vigor, devido ao risco elevado de incêndios. Assim como fogueiras para recreio, lazer, confeção de alimentos ou queima de sobrantes e restos de jardim em espaços rurais, mesmo que dentro do quintal de uma propriedade privada. Após o fim do Período Crítico, entre 16 e 31 de Outubro, não era permitido fazer qualquer fogueira ou queima sem obter previamente um licenciamento junto da Câmara Municipal de Sintra ou das autoridades locais. Para além de tudo isso, o Concelho de Sintra está integrando numa área historicamente classificada com elevado risco e vulnerabilidade a incêndios.

Eu tenho algum conhecimento do contexto urbanístico e populacional de Sintra, porque cresci e vivi durante vinte e cinco anos a testemunhar a transformação avassaladora do concelho. Em anos recentes, investi fundos e esforço pessoal na região saloia, devido ao meu interesse por casas tradicionais. No meu quadragésimo aniversário, visitei uma casa de pedra parcialmente renovada, que adquiri. Por razões subtis e funcionais nunca lá passei uma noite! Quatro anos depois, ficou claro que o imóvel não era compatível com as necessidades e o meu desejo de maior proximidade da serra, com ou sem casa. Por isso, tinha de a deixar ir. A reabilitação terminou, por bom-senso e cansaço, com a venda recompensadora, que me reconduziu à vila de Sintra e me trouxe muita paz de espírito.

Tinha em vista um refúgio, para lazer esporádico, e não apenas o investimento imobiliário. Muito menos, o negócio dos alojamentos locais ou atividades coletivas em ambiente domiciliar. Prezo muito a privacidade familiar e as dinâmicas energéticas do meu lar. Nunca quis fazer nada disso numa casa minha, por mais espaço que tenha.

Aprendi mais acerca de IMT, de IMI, de ARU, do RGEU, do PDM, do SCIE, do Regulamento Municipal do Uso de Fogo e Limpeza de Terrenos, e inúmeras regras em vigor, para defesa do delicado equilíbrio no Parque Natural Sintra-Cascais e no seu entorno imediato. Estar inserido na área protegida do PNSC nunca quis dizer que se vive em todo o lado como na natureza das encostas da montanha. Devido ao meu interesse pelo Imobiliário em Sintra, tenho observado muita falta de consideração, laxismo e infrações que comprometem o património natural e edificado, a qualidade de vida e a propriedade alheia, de forma irreversível e incontornável, mesmo em áreas de reabilitação urbana.

A Praia das Maçãs tem a designação de “praia urbana” (ou praia com uso intensivo do tipo I) desde 25 de Junho de 2003. As antigas aldeias no sopé da serra há muito se transformaram em bairros compostos por emaranhados de moradias em banda, imóveis em ruínas, um sortido heterogénio de vivendas independentes, piscinas, lotes de gaveto, e até prédios, que aumentam a olhos vistos. O bosque serrano, que deixei de frequentar, é um lugar com muitas interferências; de filmagens, sessões fotográficas, práticas xamânicas, vestígios devocionais, medidas questionáveis de gestão, turismo, desportos, e incursões de grupos, que também têm impacto.

Quem organiza centenas de eventos por onde passam milhares de pessoas de todo o mundo, deve saber muito bem tudo o que está a fazer, mas antes de mais nada, tudo o que não pode fazer. Nem devia ser necessário invocar as proibições. Há perigos que são tão evidentes que a atitude preventiva deveria surgir de forma espontânea. Sobretudo, a pessoas preocupadas com a natureza de Sintra e do planeta, mesmo que não lhes interessasse tanto assim as casas circundantes. Não compreendo, nem sinto que tenha de ter qualquer condescendência para tentar aceitar as motivações de quem promovia, repetidamente e durante o Verão, esta modalidade de sauna, que não dispensa fogueiras no exterior, mantas, cobertores e outros materiais facilmente inflamáveis. Que não se coaduna com a legislação nacional e as medidas excepcionais em vigor, nem com as condicionantes óbvias da área urbana habitacional do PNSC, onde o “retreat centre in nature” estava inserido.

Por outro lado, quem participa deve procurar saber se as atividades em que se inscreve e os locais onde decorrem cumprem todos os requisitos legais. O mais certo é que, assim que começarem a fazer várias perguntas, os informem de que todas as vagas foram preenchidas e tomem medidas para os pôr à distância, para não voltarem a ser contactados. “Fica com o que te serve e deixa o que não te serve!” No entanto, um plano de atividades não dá os detalhes de como tudo será concretizado. Eu nunca tinha estado presente numa sauna daquele tipo. Tinha uma ideia do Temazcal, porque conheci pessoas que fizeram isso em meio rural, mas pensei que esta sauna, numa moradia, não fosse igual. O modus operandi não estava descrito no programa daquela imersão nem no programa mais extenso dos outros quatro encontros com saunas deste tipo, que decorreram de 25 de Junho a 1 de Outubro de 2016 (três saunas no Período Crítico de Incêndios, de 1 de Julho a 15 de Outubro). Apenas constam o simbolismo e os alegados fins terapêuticos da atividade.

Não interessa se alguém se acha experiente, se confia plenamente em quem vai estar a tratar do fogo, e se acredita que nada pode correr mal, porque fizeram aquilo centenas de vezes! Algumas coisas têm a ver com o mais elementar respeito por normas que são impreteríveis, para quem se preocupa com o seu entorno e com todos os outros, sejam pessoas humanas, animais ou vegetais, e que não coloca nenhum interesse, nenhuma ideologia, nenhuma motivação pessoal ou associativa acima disso. São normas que muitos participantes destas iniciativas ignoram ou preferem esquecer, durante certas ocasiões.

Há quem vá contra a sua própria consciência e alinhe em tudo para não se incompatibilizar com ninguém. Especialmente uma pessoa (personalidade?) que conhece tanta gente, que é colaborativa e dada a parcerias, num determinado nicho de um certo microcosmos nacional. É um ativo que muitos não querem desprezar. Diga-se que também há quem simplesmente rejeite todas as proibições e não se importe nada de infringir limites impostos, junto de semelhantes que pensam exactamente da mesma forma e que nunca irão tecer-lhes nenhuma “crítica”. Há gente para tudo.

Eu estou nesta circunstância extraordinária, que é quase um luxo, em que nada me inibe de abordar nenhum assunto que diga respeito a conteúdos realizados pela Iris e ao que presenciei no passado. Especialmente, depois de toda a verbosidade e presunção de elevação moral que ela me dirigiu, sem que eu alguma vez lhe tivesse feito algum mal. Haja alguma humildade…! É claro que, se ainda houvesse algum vínculo, o mais básico entendimento entre mim e a pessoa em questão, eu não o faria. Por isso, entendo que muitas outras pessoas não se pronunciem. O mais provável é que, senão antes, com certeza depois de ver os “super vídeos” da Iris, eu tivesse dispersado por iniciativa própria. Ficar a assistir a tudo calada, seria uma violência auto-infligida. Eu não sou masoquista nem sacrifico a minha consciência e o meu Serviço para ficar menos mal com a Iris.

Comentários e hipocrisia

Algumas semanas depois de me enviar a mensagem de madrugada, seguiram-se comentários com insinuações na página pública do meu blogue, que considero uma hipocrisia e uma petulância. São uma inversão do que se passou e contraditórios da terminante mensagem de desapreço, que ninguém enviaria de madrugada a alguém que quer manter no seu entorno. Àquela data, eu nem tinha escutado tudo, para me proteger, e só decidi fazê-lo sete meses depois, em Fevereiro de 2020. Nem queria acreditar no que escutei, quando a Iris disse que eu podia removê-la da minha lista de contactos! Como se eu não soubesse. Tal não aconteceu. Foi então que fiz registos de tudo, incluindo da troca de comentários na página pública do blogue. Se eu estivesse inteirada da totalidade da mensagem, a minha resposta a estes comentários públicos não teria sido tão condescendente.

No comentário da Iris na página pública do blogue, não percebo a que se deveu a advertência, “Se te referires a mim e ao meu trabalho…”, como se isso alguma vez tivesse acontecido ou fosse provável. Eu nunca me pronunciei acerca do pouco que conheci do trabalho que a Iris desenvolvia. No texto acerca de “centros de retiros”, escrevi, “sem prejuízo das actividades desenvolvidas” naquele local. Muito menos, alguma vez eu escrevi acerca da Iris, com quem nunca tive proximidade. Se ela viu e se identificou com alguma generalização, é natural que se tenha sentido evocada. Eu não escrevia a pensar de que forma a Iris ia interpretar fosse o que fosse, mas if the shoe fit

Entre nós, havia apenas alguma cordialidade, mas a mensagem de voz foi reveladora da animosidade que a Iris nutria em relação a mim. Talvez ela precisasse de assumir isso e deixar o que não lhe servia! No entanto, a alusão a “conflitos e polémicas” é uma insinuação mais grave, dado que eu nunca dei azo a isso. Ao ter escrito aquilo, em público, numa página minha, foi a própria Iris que criou e tentou envolver-me em “polémicas”. Fiquei com a sensação de que ela queria alguma reação pública da minha parte, algum “debate” em comentários, depois do monólogo absurdo em privado. Ela não escreveu nada daquilo para mim, mas sim para quem mais pudesse estar a ler.

Embora as minhas palavras lhe assentassem como uma luva, a publicação da página pública do blogue não tinha a ver com a mensagem. É claro que eu escutara o suficiente para perceber o intuito daquele solilóquio, que ainda tinha aquilo em mente, e isso notou-se no meu desabafo. Afinal, uma pessoa que eu conhecia de Glastonbury estava a passar pela mesma situação, por causa de uma publicação num grupo, do qual a Iris nunca foi membro.

Mantenho tudo o que escrevi. Se a Iris achou que o post era acerca da mensagem, então, não havia necessidade de fazer mais um solilóquio moralizante e falso, a mencionar “verdadeira amizade” nos comentários, sem o sentir e sem ter tido a frontalidade de dialogar comigo, dando “oportunidade ao debate”. Uma troca de impressões a horas decentes, de forma direta, dizendo exactamente o que a incomodava, e que me permitisse interpelá-la, em vez de ter de escutar um monólogo depreciativo, amesquinhante e vago, durante vários minutos.

Se a Iris queria distância e lhe faltava frontalidade e humildade para se dirigir a mim de forma condigna, pessoal, e não como co-administradora ou moderadora de qualquer grupo, devia ter-se simplesmente retirado da minha lista de contactos, anulado o pedido no grupo, sem implicar ruidosamente com as minhas publicações e sem me enviar estas gravações depreciativas, a dizer de tudo para que eu me afastasse, ou mesmo para que eu a bloqueasse de vez e desaparecesse do panorama.

Em meados de Abril de 2021, a Iris apartou-se dos meus perfis sociais, sem uma palavra. Curiosamente, em simultâneo com outra pessoa, sua parceira de eco-mitologias e podcasts, que nunca conheci pessoalmente. Pode ter-se melindrado com algumas publicações, algumas silvas “Walk the talk…” no meu perfil de Facebook. Faço ideia. Como este comunicado que eu também tinha publicado no blogue Divina Mens – Mente Divina, no artigo “Personas, personalidades e paranóia”, de Agosto de 2019:

“Antes de mais, para ser clara como cuspo de anjo, quanto a manifestações de desagrado e indignação que me tenham sido dirigidas, devo dizer que não encontraram terreno fértil a polémicas, questiúnculas, suspeitas e mesquinharias. Não dou ouvidos, literalmente, a qualquer mensagem ou monólogo que, à partida e apesar do tom de voz estudado que não disfarça a crispação, soa a uma recriminação, é disparatada, absurda, descabida, ofensiva, discriminatória, inoportuna, indiscreta, abusiva da minha disponibilidade e da confiança que dei a alguém. Enfim, um teste à minha paciência. Mais, reconheço nesse tipo de missiva holier than thou, com função moralizadora, o intuito subliminar de humilhar, de condicionar o discurso alheio e de desencorajar, ou mesmo eliminar, a partilha pública.

Nem no meu perfil pessoal nas redes sociais nem na página pública afeta a este blogue há espaço para o diz-que-disse, para o sarcasmo medíocre, nem para os joguinhos dos pequeninos poderes, que só podem decidir quem participa nos seus quintaizinhos sociais. Este espaço tem um intuito benéfico, despretensioso, e é usado de boa-fé. Não é nenhuma coluna de escárnio e maldizer acerca desta ou daquela pessoa. Igualmente, de acordo com a pessoa que o dinamiza, também não se presta ao proselitismo, às afiliações, às parcerias promocionais, nem às bajulações.

De resto, este blogue – como toda a minha presença nas redes sociais – são feitos de apontamentos e intervenções momentâneas ou apenas esporádicas, não constituindo uma parte significativa da minha vida. Qualquer comentário deve ser breve, claro, objetivo, e depurado de dramatismo, insinuações, e raiva. Asseguro que tento ler todos e dar-lhes reconhecimento. Não ambiciono ter uma multidão de seguidores nem um mar de elogios. Definitivamente, não sou uma “personalidade” emergente, nem decadente, no microcosmos das espiritualidades, das artes populares, nem da domesticidade ecológica.

Sem uma equipa de gestão de Comunicação e Imagem, a capacidade de moderar centenas de interacções nas redes sociais é muito limitada, o que pode suscitar alguma mania de perseguição a quem confia grande parte da sua vida às redes sociais, e a elas recorre para gerir vários aspectos das suas iniciativas profissionais. O medo e a ansiedade são compreensíveis, mas devem ser relativizados, sob pena de alimentarem a paranóia, que faz as pessoas sentirem-se constantemente no centro das atenções ou aversões alheias. Por sua vez, isso é um catalisador de problemas, se não houver ninguém que saiba impor limites aos seus efeitos e consequências.”

Imagem de Setembo de 2019, do meu antigo blogue Divina Mens – Mente Divina. Na banda lateral à esquerda, na secção Artigos Recentes, pode ler-se o título do meu comunicado de Agosto de 2019, “Personalidades, personas e paranóia”

Bloqueios de perfis sociais

No entanto, a Iris não só se retirou como, por motivações nada transparentes, recorreu ao bloqueio eletrónico dos meus perfis sociais @andreiasdemorais! Foi mais uma inversão da realidade. Ao contrário do que a Iris fez, eu nunca a importunei com comentários sinuosos em página pública, mensagens escritas nem missivas de voz de desapreço, a desprezar a nossa conexão. A Iris só precisava de ignorar as minhas publicações, deixar o que não lhe servia, e abandonar o meu perfil social, em vez de sugerir que eu o fizesse por ela!

Os bloqueios tiveram o condão de me deixar mais atenta às publicações dela, às quais sempre acedi de forma legítima. A Iris estava a par dos meus interesses célticos e arturianos, da minha ligação de longa data a Glastonbury e ao sudoeste britânico. É inusitado que a Iris, algum tempo depois de bloquear os meus perfis, tenha passado a publicar os referidos conteúdos, cooptando os Celtas e a Lenda Arturiana e dizendo publicamente, com a aparência mais cordata e inclusiva do mundo:

“Gostava que nos concentrássemos aqui um pouco, que pensássemos em conjunto sobre a Lenda Arturiana”

Em Setembro de 2023, segui o perfil de Instagram da Iris com um perfil provisório. Sem surpresa, foi imediatamente bloqueado por ela e, no mesmo momento, removido do perfil da colaboradora acima mencionada. Esta atitude de rejeição conjunta foi incoerente, porque a Lila Moreira manteve sempre a conexão no meu perfil privado de Facebook, por distração ou outra razão que evito conjeturar. Fui eu que terminei essa ligação, algum tempo depois disto.

A Iris não precisa de um bloqueio para me dissuadir de tentar participar, ou para deixar claro que permanecerei barrada de participar, nas iniciativas dela e de quem mais possa vir a bloquear-me e remover-me, nas redes sociais e mais além. De certo, reparou que eu só me inscrevi uma vez, em 2016, que fui a única do grupo que não adentrou aquela sauna, e que nunca mais me inscrevi, por razões que não têm apenas a ver com aquilo que escrevi no blogue, mas também com questões pessoais e de natureza sensitiva, com situações que simplesmente não ressoam em mim, e outras que não me agradaram, mas que nem têm nada a ver com alojamentos, e que só percebi bem à posteriori.

Não têm de me penalizar por isso. Apesar de naquele momento eu me sentir desgastada por algumas circunstâncias que vivenciei, em presença eu agradeci por escrito o que de bom aconteceu. Como mulher que meses depois daquela iniciativa encontrou sozinha a solução para o seu desejo de maternidade e se tornou mãe independente, gostaria de lhes ter feito um reparo acerca de algo limitado que me foi sugerido, por certo com boa intenção, num momento de partilha em grupo, provocando muitos risinhos. Foi um desapontamento, a meio do retiro. Calei-me. Eu não senti que fosse oportuno nem que houvesse proximidade para referir mais nada, depois de terminada aquela imersão de fim-de-semana. Palavras para quê? Afinal aquela foi só mais uma entre as muitas iniciativas que elas organizaram, com centenas ou milhares de mulheres que devem estar muito satisfeitas. Eu deveria ter seguido a minha intuição, confiado nos meus pressentimentos, e não participado.

Tudo o que aconteceu me levou até aos “super vídeos”, aos pontos-de-vista e crenças pessoais da Iris, mas também à falta de noção e às deturpações dela acerca da Lenda Arturiana, dos Celtas, e de vários aspetos da Herança Céltica. A Iris deve saber que um bloqueio eletrónico de perfis sociais não serve para controlar o que outras pessoas vêem, porque não constitui uma proibição imposta a ninguém de aceder a qualquer conteúdo público. As publicações em qualquer formato estão sujeitas a observações e a opiniões públicas, que qualquer pessoa é livre de fazer, mesmo que uma autora prefira permanecer apartada, do outro lado dos seus bloqueios, e não queira tomar conhecimento disso. No que a mim diz respeito, a “investigadora” enfaticamente “pagã”, Iris Lican Garcia, ficou:

“a perder a oportunidade de visões múltiplas e por isso sempre necessariamente mais amplas.”

Palavras de Iris Lican Garcia na página pública do meu blogue Divina Mens, em 28 de Julho de 2019.

Nota legal:

As menções, os breves resumos de vídeos e notas biográficas são publicadas de acordo com os termos previstos no Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, TÍTULO II – Da utilização da obra, CAPÍTULO II – Da utilização livre e permitida, SECÇÃO I – Da utilização livre, alínea h) do nº 2 do Artigo 75.º;

«2 – São lícitas, sem o consentimento do autor, as seguintes utilizações da obra:  

h) A inserção de citações ou resumos de obras alheias, quaisquer que sejam o seu género e natureza, em apoio das próprias doutrinas ou com fins de crítica, discussão ou ensino, e na medida justificada pelo objectivo a atingir; »

De acordo com a alínea a) do nº 1 do Artigo 76.º;

«Requisitos

1 – A utilização livre a que se refere o artigo anterior deve ser acompanhada: a) Da indicação, sempre que possível, do nome do autor e do editor, do título da obra e demais circunstâncias que os identifiquem;

2 – As obras reproduzidas ou citadas, nos casos das alíneas b), d), e), f), g), h) e i) do n.º 2 do artigo anterior, não se devem confundir com a obra de quem as utilize, nem a reprodução ou citação podem ser tão extensas que prejudiquem o interesse por aquelas obras.»

Capturas de ecrã do Instagram e do Vimeo de acordo com os termos previstos na Section 107. Limitations of Exclusive Rights: Fair UseUS Copyright Law:

«Notwithstanding the provisions of sections 106 and 106A, the fair use of a copyrighted work, including such use by reproduction in copies or phonorecords or by any other means specified by that section, for purposes such as criticism, comment, news reporting, teaching (including multiple copies for classroom use), scholarship, or research, is not an infringement of copyright. In determining whether the use made of a work in any particular case is a fair use the factors to be considered shall include—

(1) the purpose and character of the use, including whether such use is of a commercial nature or is for nonprofit educational purposes;

(2) the nature of the copyrighted work;

(3) the amount and substantiality of the portion used in relation to the copyrighted work as a whole; and

(4) the effect of the use upon the potential market for or value of the copyrighted work.

The fact that a work is unpublished shall not itself bar a finding of fair use if such finding is made upon consideration of all the above factors.»

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