Um traço distintivo dos Celtas, e a mais forte acusação contra eles, da parte de muitos académicos actuais, é a inexistência da mais pequena noção de nacionalidade ou consciência nacional. Como Le Roux e Guyonvarc’h notaram, por outras palavras, é preciso não esquecer que a política se torna inútil quando existe uma unidade religiosa. A consequência disto é a ausência de todo e qualquer patriotismo. Não existe nenhuma palavra celta que insinue ou possibilite a tradução, sequer aproximada, da noção de “pátria”. O uso do francês patrie não se generalizou antes do século XVI e o alemão Vaterland não é anterior ao século XII.
À semelhança da aplicação de outros conceitos, quando se trata dos Celtas, a precaução e contextualização verbal devem ser uma prioridade. Sobretudo, sempre que usamos palavras relativas a nação, sociedade, civilização, literatura, ou a qualquer outra generalização que preceda o adjetivo céltica ou céltico, e que pretenda distinguir a nacionalidade e a etnia. Não deixa, portanto, de ser curioso e ao mesmo tempo revelador, que os menos conhecedores acerca dos Celtas, e contrários ao modo de estar desses antepassados, sejam muitas vezes os que reclamam, fervorosamente, maior afiliação, sob a forma de reivindicações e ideologias nacionalistas, que em muito extrapolam as peculiaridades étnicas, próprias das minorias reconhecidas a nível europeu e mundial.
Na actualidade, os aspectos linguísticos transformaram-se em critério de inclusão ou exclusão das ditas “nações” célticas na Celtic League. Foi fundada em 1961 e tem a importância que lhe derem. Cada um é livre de criar critérios para decidir quem pode ou não ser membro do seu clube moderno, mas nenhum clube moderno tem legitimidade para decidir quem é ou não é oficialmente céltico. O facto de, em 1986, a Galiza ter sido admitida naquela liga e, apenas um ano mais tarde, ter sido rejeitada é uma ferida aberta na costa atlântica da Europa. Como foi referido no artigo Galicia’s disputed Celtic heritage, publicado pelo Economist, em Maio de 2017, as “nações” ditas célticas dão-se ao luxo de questionar a ancestralidade da Galiza.
Os problemas continuarão a existir enquanto perdurar o mau-hábito de chamar “Celtas” a pessoas viventes e de abusar do adjectivo “céltico” para resumir as culturas gaélica, irlandesa, escocesa, galesa, córnica, bretã, galaica, barrosã, e qualquer outra que exista na actualidade. O facto de, por vezes e apenas em contextos muito bem delineados, fazer algum sentido usar a designação de “países célticos” para algumas áreas geográficas, não deve ser confundido com a sobrevivência dos Celtas, enquanto populações actuais ou com a existência de um “ADN celta” imaginário. Remeto para Genética e Genealogia. Nem sequer com uma unidade cultural e política, que não existe nem existiu no passado. Quase repito as palavras de Le Roux e Guyonvarc’h, relativamente à Antiguidade (p. 16, A Civilização Celta):
“Será muito difícil compreender que o termo Celtas designa o conjunto da etnia, enquanto todas as outras denominações, Gauleses, Galeses, Bretões, Gálatos, Gaélicos, se aplicam a povos distintos?”
Quanto ao artigo do Economist, apesar de uma breve crítica à Escócia, Gales, e Cornualha, é escrito de um ponto de vista parcial, menosprezando a Galiza, como se o povo da região não tivesse muito a que se agarrar, para além do seu entusiasmo festivo. A apresentação da herança da Galiza é sempre escrutinada por comparação directa e superficial com as culturas irlandesa, escocesa e bretã. Até aspectos bem posteriores ao período céltico, elementos do Paganismo moderno, e as neblinas da região servem para pintar uma Galiza deprimida, que apenas pode ser um pálido reflexo da Irlanda ou da Escócia. Como se essa fosse a craveira de autenticidade a aplicar a todas as culturas regionais que preservem a sua própria herança!
Infelizmente, esta tentativa de assemelhar umas regiões às outras só faz perder de vista as especificidades de cada uma, que são mais genuínas do que um certo folclore que tem sido exportado por uns, importado por outros, e ajustado de forma redutora a cada região, para que alguns possam ter proveito. Estampem um símbolo levemente semelhante a um triskle ou tríscele sobre uma qualquer imagem melancólica e nebulosa, com tons dramáticos ou lúgubres. Juntem-lhes um título ou designação em inglês, com uma fonte Celtic e aí temos a mais comum representação visual daquilo que o público consegue imediatamente descodificar como sendo alusivo aos Celtas e à herança céltica. Esta imagética é usada até à exaustão, para reclamar procedência genética ou espiritual, quando isso é uma mais-valia para a promoção de seja o que for. Inclusivamente de propaganda nacionalista dita “céltica”. É o que se chama um oximoro, um absurdo paradoxal ou uma aberração.
A visão que transforma as “nações” da Celtic League em modelos “célticos” provoca uma distorção perceptiva idêntica àquela produzida quando a visão eurocêntrica predomina na análise de culturas de todo o mundo. É essencial perceber que o fenómeno céltico não pode ser pensado como o Império Romano, que avaliava e nivelava as outras culturas à luz do modelo de Roma. Os povos célticos eram múltiplos e distintos, com alguns traços comuns, mas sem filiação a nenhuma capital nem a uma alegada super cultura céltica das Ilhas Britânicas. Por que razão se tornariam os seus diversos e afastados descendentes mais semelhantes, na atualidade? Esta hegemonia insular, largamente incontestada, não faz sentido. A popularidade do modelo céltico britânico deve-se à universalidade da Língua Inglesa. A mesma que domina a indústria do entretenimento de massas e que permite que o artigo do Economist tenha alcance global. Apesar de não ser especialista em Estudos Célticos nem nada que se pareça, a entidade que o escreveu, sob o pseudónimo Prospero, pode tornar-se influente nesta questão, junto de um público generalista (a minha tradução):
“O pedigree céltico da região é questionado de outras formas. Algumas das suas tradições – como ligar a região ao mítico herói Breogan – são na verdade invenções românticas. Um glorioso e sofisticado passado céltico foi exagerado numa área manchada pela pobreza e ignorada pelo governo central. Mas a Galiza não está só nesta ingenuidade; o kilt apenas se tornou o traje nacional da Escócia no século XVIII e a moderna conexão galesa aos druidas chegou ao mesmo tempo. Mesmo linguisticamente a Galiza não está tão longe de alguns membros da Celtic League: o Córnico apenas tem poucas centenas de falantes fluentes. Há séculos que o Gaélico não tem sido a língua dominante em grande parte da Escócia – apenas 1.7% dos Escoceses a entendem. No entanto, tanto os córnicos como os escoceses são ruidosamente afeiçoados ao seu passado céltico e são aceites como genuínas nações célticas.”
É a este estereótipo, conceptual e visual, o qual constitui uma apropriação cultural totalmente removida de um contexto genuinamente céltico ancestral, que se deve o fenómeno “nacionalista céltico” da actualidade. Inspira um sentimento de identidade nacional e espiritual em várias minorias éticas, há muito cristianizadas. No plano puramente político, alheado de qualquer realidade pré-cristã, associa os Celtas a movimentos nacionalistas e regionalistas, com ramificações e ligações, por vezes racialistas, a vários fenómenos clubísticos neo-nacionalistas. Também estão presentes em Portugal e apropriam-se de símbolos do nosso património histórico. Como o tríscele presente na Pedra Formosa do balneário da Citânia de Briteiros.

Encerro com o que George Orwell escreveu acerca daquele tipo de nacionalismo, em Notes on Nationalism (Maio, 1945), no subcapítulo ironicamente intitulado Positive Nationalism:
“2. CELTIC NATIONALISM. Welsh, Irish and Scottish nationalism have points of difference but are alike in their anti-English orientation. Members of all three movements have opposed the war while continuing to describe themselves as pro-Russian, and the lunatic fringe has even contrived to be simultaneously pro-Russian and pro-Nazi. But Celtic nationalism is not the same thing as anglophobia. Its motive force is a belief in the past and future greatness of the Celtic peoples, and it has a strong tinge of racialism. The Celt is supposed to be spiritually superior to the Saxon – simpler, more creative, less vulgar, less snobbish, etc. – but the usual power hunger is there under the surface. One symptom of it is the delusion that Eire, Scotland or even Wales could preserve its independence unaided and owes nothing to British protection. Among writers, good examples of this school of thought are Hugh McDiarmid and Sean O’Casey. No modern Irish writer, even of the stature of Yeats or Joyce, is completely free from traces of nationalism.”
“2. NACIONALISMO CÉLTICO. Os nacionalismos galês, irlandês e escocês têm
pontos diferentes mas são semelhantes na sua orientação anti-inglesa. Membros destes três movimentos opuseram-se à guerra enquanto continuavam a descrever-se como pró-russos, e a franja lunática até conseguiu ser simultaneamente pró-russos e pró-nazis. Mas o nacionalismo céltico não é o mesmo que anglofobia. A sua força motriz é uma crença na grandeza passada e futura dos povos célticos, e tem um forte laivo de racialismo. É suposto o celta ser espiritualmente superior ao saxão – mais simples, mais criativo, menos vulgar, menos snob, etc. – mas a usual fome de poder está lá, abaixo da superfície. Um sintoma disso é a ilusão de que a Irlanda, a Escócia ou mesmo Gales poderiam preservar a sua independência sem auxílio e que nada devem à protecção britânica. Entre os escritores, bons exemplos desta escola de pensamento são Hugh MacDiarmid e Sean O’Casey. Nenhum escritor irlandês moderno, mesmo da estatura de Yeats ou Joyce, está completamente livre de indícios de nacionalismo.”
