As vivências iniciáticas não acontecem de acordo com os planos de nenhuma peregrinação. Eu sabia que era essencial estar só, longe de tudo e todos que me eram familiares, mesmo sendo problemático. Não era apenas uma questão de auto-conhecimento, para testar os meus limites. Ninguém precisa de ter mais nenhum intuito, para além ser viandante nos lugares sagrados, com uma rede de apoio. Nenhuma mulher tem de se colocar no mesmo lugar que eu, mas dei um salto para o desconhecido e fui levada pela mão, para testemunhar um poder invisível, mas que para mim foi e continua a ser evidente e manifesto.
Sou grata a quem me mostrou os caminhos insulares que eu não teria encontrado tão cedo, se tivesse ido sozinha, mais tarde na vida. Sem prejuízo, devido a essas primeiras experiências na Grã-Bretanha, que apesar de tudo foram bastante livres, eu senti imensa necessidade de resgatar o meu desejo adolescente de empreender as minhas próprias jornadas sagradas pelos centros ativadores da memória ancestral. Eu queria sair completamente da bolha de uma viagem de grupo planeada.
Tinha lido o livro The Sun and The Serpent, que comprei autografado por Paul Broadhurst, em 2001, na King Arthur Bookshop, em Tintagel. Estava impressionada com a Península de Land’s End e a designação Morgen passou a estar no meu espírito. Significa “nascida do mar”. Está conotada com a Muirgen irlandesa, a Morvoren córnica, e a Morcant galesa. Na magnética península de West Penwith, antiquíssima Belerion, existe uma grande densidade de sacred sites. O local sempre foi farol para o tráfego marítimo, favorável às trocas comerciais, fórum da sabedoria ancestral, parte visível de uma região há muito submersa, que se prolongava para além das Ilhas Scilly e que ficou conhecida no universo lendário como o Reino de Lyonesse.

De partida para a Cornualha…
Sem que nenhuma circunstância me forçasse, em Junho de 2003 decidi que iria tentar viver, pelo menos durante algum tempo, no extremo sudoeste da Cornualha. Saí completamente de uma esfera profissional exigente, mas conhecida, que até aí incluía apenas editoras de livros, para as quais eu fui designer freelancer, logo que acabei o curso. Realizava as capas das edições, os cartazes, o backdrop e o merchandising para lançamentos de livros em locais centrais da capital, que tinham grande afluência de público. Também interrompi a colaboração com a livraria do meu pai, no centro de Lisboa, onde eu fazia trabalho logístico e assistência aos clientes.
Depois de um voo matutino para Heathrow, segui para Paddington Sation, onde apanhei um comboio da Great Western Railway, via Plymouth, com destino à estação terminal de Penzance, em Mount’s Bay, na remota West Penwith. A certo ponto da viagem, perto de Somerset, tive o impulso magnético de olhar para a janela do lado direito da carruagem e, nesse instante fugidio, ali estava o Tor de Glastonbury, à distância, entre a vegetação. Depois desapareceu. As temperaturas altas no início do Verão faziam os carris dilatar e havia risco acrescido de acidente ferroviário. Depois de passar a Royal Albert Bridge, uma jóia de engenharia de Brunel, sobre o rio Tamar, a velocidade foi diminuindo, até parecer que o comboio estava apenas a deslizar lentamente, sem usar energia, ao longo das terras baixas, estuários de maré e planícies costeiras.
Cheguei a Penzance depois de oito horas de viagem, quando a luz do pôr-do-sol refletia no St. Michael’s Mount, dando-lhe uma aparência dourada. Dois golfinhos saltaram nas águas da baía. Absolutamente idílico. A luz diurna contrastava com as ruas quase vazias e as lojas fechadas, à excepção de alguns pubs, que iam abrir portas. Fiz a minha primeira caminhada com as minhas bagagens, até Alexandra Rd, onde fica The Blue Dolphin Penzance Backpackers. Eu tinha reservado uma cama, no dormitório feminino, que acomodava sete pessoas. Para meu espanto, a cama mais apelativa estava livre. Foi um alívio, porque eu não gosto de tentar dormir em beliches.
Eu não tenho fotos, porque viajei apenas com um telemóvel de primeira geração em roaming, para estar sempre em contacto com os meus pais, mas apenas através de sms. Não arrisquei levar a Nikon semi-profissional que os meus pais me compraram para a cadeira de Fotografia. Usei-a nas primeiras Sacred Journeys, com dez rolos fotográficos. Ver as imagens do PZ Backpackers (2026) publicadas no website de reservas é como viajar no tempo. Não mudou nada e lá está a cama junto à janela com cortininhas brancas! Apesar do clima soalheiro que encontrei no início de Julho, nas semanas seguintes adormeci e acordei ao som da chuva, que escorria pelos vidros. Entre as pessoas que trabalhavam lá e que estavam alojadas, encontrei outros jovens, de várias nacionalidades, que foram um apoio incrível e estão no meu coração. Quase todos tinham ido para trabalhar durante a estação alta.
Um emprego no paraíso…
Ainda em casa, através do Jobcentre, eu tinha assegurado uma entrevista de emprego, para um lugar de waitress no restaurante silverware do Lamorna Cove Hotel, que se chamava Artist Palette Restaurant. Era um pequeno hotel de luxo, com uma vista para o bosque e o mar, uma bela piscina e grandes aspirações, localizado no exuberante vale de Lamorna, a cerca de oito quilometros de Penzance. Levemente evocativo do Hotel Penzance (Mount Prospect Hotel), onde eu ficara hospedada, durante as Sacred Journeys. Aquele vale que termina numa pequena enseada, atraiu vários pintores, mas também Dylan Thomas viveu em Oriental Cottage com Caitlin McNamara, quando se casaram, em Penzance. Eu também tinha em mente D. H. Lawrence e Virginia Woolf, para quem outros locais em West Penwith foram refúgio.
Apesar de saber que teria pouco tempo de lazer, eu fiquei entusiasmada com o facto de o Merry Maidens Stone Circle ficar a apenas um quilómetro do local. Imaginava como seria incrível sair do emprego e fazer caminhadas até lá. Cheguei ao hotel de taxi, numa tarde de sol, com uma leve brisa marítima a agitar a folhagem do arvoredo. Eu podia estar ali na qualidade de hóspede, mas naquele início de Julho a realidade era outra, por deliberação minha. O manager, Mr. Charles Barker, fez-me uma breve entrevista e aprovou-me para o lugar. Ele exigia uma apresentação irrepreensível, mas não haveria qualquer ajuda de custo para vestuário, muito menos estadia para o staff. Eu teria de ficar em Penzance.
O funcionário responsável pela minha formação no serviço e no bar, era um senhor calmo, muito profissional, que tinha vivido sempre na sua Penwith natal. Gostava de jogar lawn bowlling e levava a sua paixão mesmo a sério. Ele tinha muita experiência, vira outras pessoas passarem pelo lugar que eu estava a ocupar e soube antes de mim que eu não ia ficar ali, mas tentou incentivar-me com a perspectiva incerta de continuar, mesmo depois do Verão.
Ainda tenho o manual fotocopiado que recebi, para estudar as regras de serviço, a composição dos pratos e os talheres adequados a cada um, a disposição do buffet do pequeno-almoço, a extensa lista de tarefas, regras de etiqueta e sequência do serviço. Inclui as listas, com descrições detalhadas de todas as bebidas alcoólicas; champagnes, vinhos de todos os tipos, spirits, portos, cervejas…, onde apenas consta um vinho tinto português, do Douro. Também as listas dos cafés, dos chás e de como os preparar na copa. Por fim, um glossário com todas as palavras usadas nos menús, na sua maioria francesas. Depois, havia a parte que nenhum livro ensina, como transportar dois pratos em cada mão, passando pela porta vai-vem…!
Pareceu-me que aquele emprego só deveria ser atribuído a profissionais de carreira, com foco total. De outra forma, é uma perda de tempo para todos os envolvidos. É claro que naquele lugar e por aquela remuneração não podiam ser muito seletivos com os aprendizes. Sem dúvida, tenho muita admiração por quem consegue fazer aquele trabalho na perfeição.







Entre quartos…
Durante a formação profissional, eu continuei no Blue Dolphin e percebi que havia uma grande diferença entre o hotel e os bares-restaurante onde trabalhavam os outros jovens. Eles podiam ir vestidos com calças de ganga e t-shirts. Só acrescentavam um avental, enquanto eu ia para a sala de estar passar a roupa nova com um ferro elétrico de viagem. As camisas brancas imaculadas contrastavam com os jovens surfistas que chegavam da praia, ao final da tarde. O meu plano não era ficar indefinidamente naquele alojamento e eu achei que estava na hora de mudar. Procurei casas para alugar em algumas agências e por um quarto nos anúncios do jornal The Cornishman, descartando os que não me pareceram adequados. No entanto, não era fácil cumprir os requisitos para alugar um quarto, como ter recomendações e uma conta aberta num banco britânico, o que era praticamente impossível de conseguir sem um endereço de residência.
Usei o telefone de moedas do alojamento e cartões BT em telefones públicos para todos os telefonemas locais, nacionais e, pontualmente, para os meus pais. Tive sorte. Uma artista plástica chamada Stella, aquariana da New Age, aceitou receber-me para uma entrevista e mostrar-me o quarto. Eu fui até à casa da porta arroxeada com vidrinhos, no Nº9 de St Michael’s St. Por precaução, uma das minhas companheiras do Blue Dolphin, a espanhola Salomé, prontificou-se a ir comigo. Ela tinha trabalhado nos ferries irlandeses e fazia part-time num café de Penzance. Eu estava nervosa, mas ela era muito atenta e deu-me um toque para deixar os sapatos no vestíbulo. Entrámos na sala só de meias e a Stella ficou bem impressionada com isso. Disse que me achava very tidy. Era uma pessoa de fora, mais aberta do que a generalidade dos córnicos, e tinha sentido a resistência da elite artística local. Fiquei naquela noite, mas fui invadida por uma grande tristeza naquele quartinho que dava para as traseiras. Tinha saudades do ambiente e das pessoas do Backpackers!
Quando o céu desabou…
O dia seguinte foi crucial. Houve chuvas fortes e eu comecei a sentir-me miserável. Para conseguir chegar a tempo do serviço dos pequenos-almoços, chamei mais um táxi dispendioso que foi buscar-me às sete da manhã. Dias antes, eu tinha experimentado ir de autocarro, mas ele só chegava até certo ponto da estrada principal e tive de fazer o percurso a pé, pela estrada de Lamorna, ao longo do vale sombrio. Existem por ali algumas casas e cabines para artistas, para além do pub Lamorna Wink. Como viria a descobrir, é um percurso agradável em dias de sol, em boa companhia, mas eu não estava nessa situação. A natureza não existe apenas para ser agradável e a vegetação frondosa pode esconder pessoas. Eu sentia-me assustada e tinha muito receio que alguém perigoso começasse a conhecer as minhas rotinas. Também por isso, os taxis não me pareciam uma boa solução. Eu tentava não transmitir nada disso aos meus pais, quando falávamos por telefone.
Para além disso, tinha de chegar apresentável ao hotel. Caminhar à chuva não era compatível com isso, porque ficava encharcada ou transpirada, debaixo de um impermeável. Não arriscava ir para lado nenhum com os sapatos de trabalho. À chegada, para trocar de roupa, eu tinha de ir a um quartinho de arrumos, ao fundo de um corredor com cacifos. Tudo aquilo me assustava imenso, porque eu não via outras mulheres, a não ser a recepcionista. Devia haver empregadas, nas limpezas e no serviço de quartos, mas eu não sabia onde estavam. Na cozinha e no restaurante eram todos homens! A começar pelo chef vindo de Londres, que apenas vislumbrei.
Naquele dia de chuva forte, o manager, que sempre foi muito objetivo, disse-me para ir conhecer a garrafeira que ficava numa câmara com temperatura controlada. Com muita celeridade, explicou-me o que eu precisava de saber acerca de alguns vinhos, dispensou-me, e eu voltei para a salão, aliviada. Passado um momento, ele reapareceu para verificar a instalação de um piano de cauda, para um evento que iria decorrer lá. Olhou em volta, parou em mim, e chamou-me à atenção para o facto da minha camisola de alças rosa-claro se notar à transparência. Foi um reparo em tom de get rid of that!
De repente, parecia que eu estava num romance de Jane Austen, a ser repreendida por se ver o saiote debaixo do vestido. Oh dear, my peticoat! Eu tinha pensado naquilo, mas queria tapar o soutien e não tinha outra. Mesmo que tivesse havido oportunidade de comprar uma branca, no comércio limitado de Penzance, eu tinha despendido bastante em roupa e calçado, apenas para a fase de formação. Por um momento, só queria desaparecer num buraco no chão e quase chorei, mas depois decidi que esse seria o meu último dia como aspirante a waitress. Mais, seria o último dia como aspirante a qualquer tipo de emprego no Reino Unido, onde só estaria e voltaria como antes, na qualidade de viajante e nas condições mais desejáveis. Apesar de jovem, havia muito tempo que eu sabia da importância determinante de firmar as minhas intenções com clareza e baseadas no meu senso de merecimento, sem fazer concessões que pusessem em causa a minha integridade.
Afinal, aquele era o posto que ninguém quisera. Apesar de diferenciado da maioria dos empregos sazonais, a promessa de remuneração ligeiramente acima da média era apenas um chamariz. Havia demasiadas exigências para poucas condições laborais, a começar pelo transporte e as instalações para o staff. Tinha assinado um termo provisório, mas nenhum contrato definitivo. Nada poderia prender-me naquela situação. Agradeci ao meu formador, prontifiquei-me a ficar mais um ou dois dias, até selecionarem outro candidato, mas não foi preciso. A afluência ao restaurante era menos que modesta e nunca comparável à dos cafés de Penzance. O tempo veio a deitar por terra as grandes aspirações que havia para aquele empreendimento. Passou para outras mãos, até se tornar um aparthotel em sistema de self-catering.
Chamamento inequívoco…
À tarde o sol brilhava e voltei a Penzance pela estrada, a sentir-me livre! Na minha mente, surgiu uma voz a repetir em inglês “You’re free to go! You’re free to go!” Eu estava a recuar em naquilo a que me propusera e iria ter de desistir do quarto, apenas um dia depois de ter aceitado as condições e pago a caução. Devia parecer que eu estava a brincar com coisas sérias e seria fácil deixar-me tomar por um sentimento de culpa, obrigação ou orgulho que me faria insistir numa situação insustentável. Retroceder foi o mais inteligente e sensato a fazer. Entretanto, fui abordada por jovens que seguiam num carro. Perguntaram para onde ia e ofereceram-me uma boleia, que eu dispensei com um sorriso, para tentar parecer cool. Eram bem-parecidos e estavam sóbrios, mas eu nunca iria. Dali a pouco, passou o autocarro, eu acenei e o motorista parou para me deixar entrar.
Assim que cheguei a casa da Stella, comecei a explicar tudo e pedi-lhe que me devolvesse a caução. Eu tinha passado apenas uma noite naquela casa! Ela compreendeu, disse que podia recusar a devolução, mas que não ia fazer isso. O anúncio do quarto continuava nos jornais e não aparecera mais nenhum interessado. Por fim, ela confessou que tinha esperança que eu ficasse e pudesse tomar conta da casa e das coisas dela, mediante um valor mais elevado e o pagamento da temida Council Tax, enquanto ela estivesse a viajar pelo mundo! Parecia estar saturada de Penzance. Tratava-se de um caso evidente de subarrendamento. Escutei-a, enquanto fechava as minhas malas. Desejei-lhe sorte e ela a mim.
No Blue Dolphin a minha cama continuava disponível. Um dia depois, tivemos de sair todas do nosso dormitório e passar uma noite num quarto mais pequeno, porque um grupo de coreanas tinha reservado para aquela data. Welcome to Backpackers! Depois voltámos a ocupar, até que fomos informadas que haveria uma desinfestação-relâmpago, por causa de percevejos, à qual eu não cheguei a assistir.
No dia em que deixei o hotel, eu escutei um chamamento inequívoco, enquanto seguia pela berma da estrada, e por essa altura sabia muito bem qual seria o meu próximo passo. Pouco tempo depois de chegar a Penzance, eu tinha entrado em contacto com o Marc, facilitador da Sacred Journeys, responsável pelo itinerários. Ele estava em Londres, mas conhecia muito bem West Penwith, onde tinha vários amigos ligados à música e à English Craft. Ele dera-me indicações úteis e eu tinha ficado de lhe dar notícias. Quando voltei a telefonar foi para dizer que estava de partida, rumo a Glastonbury. Dali a alguns dias, chegaria um novo grupo da Sacred Journeys. Eu iria encontrá-los e combinámos que faria um telefonema quando chegasse à vila, mas eu não sabia o que me estava reservado…
Despedi-me de todos os backpackers, em particular da Salomé e da Sally, a simpática estudante alemã que trabalhava na recepção do Blue Dolphin. Foi ela que me recebeu, com zelo pela assinalável quantia de dinheiro que eu levara e que ela guardava no cofre. O meu pai, em particular, insistira para que eu não fosse desprevenida e ele mesmo tinha tratado de arranjar as libras. Também foi a Sally que conseguiu o feito de me reservar uma noite no lotado Glastonbury Backpackers, que ficava no edifício voltado a Market Place. Era no local do histórico hotel The Crown, que veio a ser completamente renovado, em 2020.
Pontes para o destino…
Sem fazer ideia de quando voltaria a Penwith, de manhã apanhei um comboio em Penzance Station, mas não apenas para regressar por onde fora. Aquela provação tinha acabado, mas não as minhas vivências iniciáticas na Grã-Bretanha. Segui com destino a Bristol, numa viagem calma, sem outra expectativa que não fosse passar alguns dias em Glastonbury. Não havia nenhum plano e isso deixava-me apreensiva, porque não tinha sido essa a ideia ao deixar Portugal, mas confiei e entreguei-me ao momento.
Pelo menos, eu sabia que os meus pais estavam mais descansados comigo a viajar do que com a possibilidade de surgirem complicações em Penzance. Mais tarde ou mais cedo, eu estaria de regresso a casa. Eu também estava bem com essa perspectiva, porque a minha tentativa de viver na Cornualha não se devera a nenhum desentendimento familiar ou à necessidade de provar a minha independência.
Depois de passar por Plymouth e Exeter, houve muito tempo para apreciar a paisagem, com as alturas de Exmoor à distância. Tendo deixado a estação de Taunton para trás, não sei bem a que propósito, comecei a conversar com um estudante e um professor muito simpáticos e educados. Eram da University of Bristol e fiéis da Igreja dos Santos dos Últimos Dias. Em momento algum tentaram doutrinar-me e fomos apenas a conversar acerca da cidade e de Portugal, onde um deles tinha estado.
À chegada, sabendo que eu teria de fazer uma ligação entre Bristol Temple Meads Station e o terminal rodoviário, eles propuseram partilharmos um táxi para fazermos um pequeno tour pela cidade, com passagem pela belíssima Clifton Suspension Bridge, até à entrada de Burwalls House. Sem dúvida, um treat que eu agradeci. Por fim, pelas três da tarde, o taxi deixou-me no terminal e eles seguiram, mas não sem antes me oferecerem um exemplar do The Book of Mórmon. Com gratidão, lá fui eu, a caminho do lugar da minha vida que mais se assemelha à minha Igreja e a primeira das Ilhas Britânicas; the most hallowed ground in Britain.
Glastonbury, Avalon of the Heart…
Recordo-me de um compasso de espera no antigo terminal rodoviário de Bristol, que operava no edifício original de 1953 e que veio a ser completamente demolido, três anos mais tarde. Depois de embarcar e de nos afastarmos da área suburbana, as colinas e o arvoredo dominaram a paisagem e o meu corpo começou a tenir, como sempre, desde a primeira vez que me encaminhei para Glastonbury. Deixando para trás Chewton Mendip e a crista das colinas mais elevadas, passada mais uma e outra curva na A39, a paisagem abriu-se de forma dramática e lá estava o vale com o Tor ao longe. Como não chorar? Sem surpresa, houve lágrimas de felicidade! O meu vislumbre no comboio, de caminho para a Cornualha, tinha sido um presságio.
Com apenas alguns minutos entre autocarros, não pude rever Wells, mas chegar ao meu destino era a única prioridade. Pelas seis da tarde, desci na paragem de autocarro, em Magdalene St, junto a Market Place. Havia bastante agitação na vila, devido à confluência de alguns eventos anuais que tinham atraído muita gente e lotado todos os alojamentos mais centrais. Respirei e olhei em volta, num breve cumprimento, antes de passar a estrada e entrar no Backpackers, que era muito diferente do luminoso Blue Dolphin de Penzance.
Subi as escadinhas acanhadas, pelo lado direito, oposto ao bar, e cheguei à recepção, que ficava no primeiro andar, onde também havia uma sala de estar com televisão. Ali, estavam reunidos vários jovens, e não tão jovens, com rastas nos cabelos e um look festivaleiro. Depois de confirmar a reserva, segui para o andar superior, que tinha as paredes pintadas de cor-de-laranja. De passagem por outras portas, fiquei com a impressão de que algumas pessoas deviam estar ali a morar! Nesse andar, ficava o quarto-dormitório feminino para seis, com janela tripla e uma casa-de-banho mínima, com duche. Havia uma cozinha com equipamento básico e um telefone de moedas. Escusado seria dizer que nunca tirei o meu cinto de valores.
Fiz os prometido telefonema ao Marc. A chegada do novo grupo estava prevista para o dia seguinte. Ele disse-me que tinha mencionado as circunstâncias da minha presença em Glastonbury à Alaura, a criadora das Sacred Journeys. Ela queria convidar-me para ir ter com eles a EarthSpirit Retreat & Centre, para jantar e, se eu quisesse, para passar a noite. Eu disse logo que sim e agradeci! Primeiro, porque ia estar com eles, que eu conhecia e em quem confiava plenamente. Depois, porque adoro aquele centro em Compton Dundon e, por fim, porque nem sabia como ia resolver o problema de falta de estadia. Só tinha cama no Backpackers naquela noite. Provavelmente, passaria o dia seguinte a fazer telefonemas e de malas na mão, à procura de um B&B mais distante do centro ou em Street. Há cerca de vinte e cinco anos, a oferta de alojamento na vila era muito menor.
A noite foi passada sem dormir, na cama inferior de um beliche metálico, com as minhas malas por baixo. Assim que começou a clarear, arranjei-me o melhor que pude, peguei nas minhas malas e saí, em direção à padaria familiar Burns the Bread, para o pequeno-almoço. Passei algum tempo no centro da vila, a revisitar as igrejas e as livrarias, como a Gothic Image, que veio a encerrar no início de 2019. Caminhar até ao Tor e subir ao topo com as minhas bagagens não era sensato, muito menos penitente, mas foi o que eu fiz! Pelas cinco e meia da tarde apanhei o autocarro para Compton, onde me restou caminhar pela berma da estrada, até EarthSpirit Centre. Senti-me reconfortada, assim que me aproximei da grande yew-tree, um teixo com mais de 1700 anos, junto à entrada de St Andrew’s Church.

Sacred Journeys…
Cheguei pelas seis horas, quando todas as mulheres estavam a instalar-se nos seus quartos. Como era de esperar, encontrei o Marc sentado junto à antiga entrada do Main Hall, a apreciar o vôo das andorinhas em torno de Dundon Hill Hillfort. A Alaura apareceu pouco depois. Tivemos uma conversa e mediante uma proposta de última hora paguei um valor justo, para cobrir as despesas com estadias, e passei a fazer parte da peregrinação que estava a começar. Tudo parecia predestinado a conjugar-se. A facilitadora que eu conhecera nos anos anteriores não viajara, devido a um imprevisto. Uma vez que eu tinha feito aquela viagem antes, acordámos que iria colaborar em alguns aspetos e ocupar o único lugar vago, na dianteira da carrinha. Eu não tinha qualquer dúvida que não iria substituir a Jessica em nada, mas aceitei e passei a ser co-adjuvante em várias atividades.

De volta ao meu adorado Apple Loft, finalmente, pude dormir em paz, mesmo com os primeiros raios de sol a entrarem pelas janelas do telhado. Aquele era o local em Inglaterra que me fazia sentir mais em casa. Fui completamente acolhida pelas mulheres do novo grupo; americanas, canadianas, e australianas. Voltei ao topo do Tor, aos círculos, às danças, aos cânticos, e até à conferência, onde conheci Lady Olivia Robertson, que participava pela primeira vez, aos oitenta e seis anos. Realizámos a homenagem aos ancestrais, no centro de Stonehenge, antes da abertura ao público, num momento entre aguaceiros, enquanto os corvos de Mórrígan, a Grande Rainha, nos olhavam do topo dos trílitos. Apesar do itinerário idêntico, houve aspetos novos para mim e nada nessa peregrinação foi um simples déjà-vu.
Depois da sempre desejável paragem em Port Isaac, para dias a explorar Tintagel, St Nectan’s Glen, Rocky Valey, Boscastle e Minter Church, à chegada a Penwith não foi possível ficar instalada no Hotel Penzance. Os quartos single estavam repletos e não sobrava nenhuma twinbed. Reservei um pequeno quarto por duas noites, no simpático Alexandra Inn, do outro lado da cidade, na mesma rua do Blue Dolphin PZ Backpackers! Fiz-lhes uma visita e descobri que a Salomé tinha partido. De resto, passava todo o tempo com a Sacred Journeys, a palmilhar os sacred sites da Península de Land’s End. Como convidada e cliente, voltei a relaxar na piscina do hotel e a jantar no apetecível The Bay Restaurant, com vista para o porto, Marazion e o evocativo St. Michael’s Mount. Outrora, esse foi o pico rochoso no centro de uma vasta floresta que o mar cobriu. É o cenário da lenda do Gigante e do Rei Artur.
Tinha passado pouco mais de uma semana, desde que eu deixara a cidade, mas sentia-me a anos-luz da experiência em Lamorna. Estava onde devia e merecia estar. Muito para além de quaisquer amenidades, eu sentia-me abençoada por ter a possibilidade de voltar aos centros ativadores da memória ancestral, para aprofundar a ligação. Essa era a minha motivação, que de tão forte me levou a embarcar numa experiência que acabou por ser iniciática. É claro que houve um elemento de fascínio e ilusão na minha decisão de tentar viver em Penwith, porque eu cometi o erro de romantizar a vida quotidiana naquele lugar. É o que muitas pessoas fazem em relação, por exemplo, a Glastonbury. Quando, na verdade, o que desejam é expandir a vivência do peregrino ou do grupo de mulheres, removida do quotidiano e sem fim determinado. Ou então a de Avalon, que apenas conseguirão através dos planos interiores.
A viagem seguiu o seu curso habitual, até Bath, onde revisitei The Roman Baths e a Pump Room. À chegada a Londres, fiquei mais uns dias, graças a amigos do Marc. Fui pela primeira vez à Atlantis Books e tive a sorte de visitar a exposição “A Private Passion: Harvard’s Winthrop Collection” (25 June – 14 September 2003), na National Gallery, que contemplou alguns dos meus pintores pré-rafaelitas preferidos. Tentei sair por quatro vezes, mas voltava sempre a dar mais uma volta, para contemplar os quadros de Rossetti e, a minha perdição, as obras de Burne-Jones.
A ligação às Sacred Journeys continuou, em 2004. O Marc optou por deixar de conduzir os grupos, mas fomos os dois até ao norte da Cornualha para acompanhar a visita a Tintagel, Rocky Valley, Minster Church e Boscastle. No entanto, não foi possível subir até ao castelo, devido aos ventos fortes que pareciam anunciar o que aconteceu apenas dias mais tarde. Refiro-me à terrível flash flood que devastou a aldeia piscatória de Boscastle. Acerca deste acontecimento, convido à leitura de Museum of Witchcraft and Magic – Censura e Memória. As viagens passaram a ter um minibus com condutor contratado, que estava completamente fora do contexto. Por isso, tornaram-se mais curtas e excluiram as estradinhas rurais de Penwith. Foi o início do fim.
Nos anos seguintes regressei à Grã-Bretanha em circunstâncias pessoais diferentes. Passei a conviver com o entorno familiar e de amigos do Marc, na paisagem do South Downs National Park, em East Sussex. Também na beleza rural de Offwell Woods, nos limites das Blackdown Hills, em Devon, e em Penzance, Newlyn e Falmouth, na Cornualha. Estive lá quando o Marc comprou casa e se mudou definitivamente para Mount’s Bay. Comecei a usar o aeroporto de Newquay para fazer a ligação com Gatwick e não voltei a viajar na Great Western Railway, mas é sempre uma possibilidade.
Passei temporadas na Península de Land’s End e tive a oportunidade de caminhar pela estradinha de Lamorna, bem acompanhada e em dias de sol. Conheci mais sacred sites, enseadas, praias, bosques, jardins luxuriantes, portos e vilas, também para leste; sobretudo, até St Mawes. Caminhei ao longo do South West Coast Path e continuo a receber muitos insights dos Mistérios Córnicos, do passado longínquo e dos territórios submersos. A minha ligação ao sudoeste britânico, à Cornualha e, sobretudo, ao Vale de Avalon perdura até ao presente.
