Conteúdos
Os meus textos incluem esclarecimentos fundamentados, relativos a inverdades que ferem a minha sensibilidade, acerca de qualquer aspecto das heranças que eu sirvo. Sobretudo, quando se trata de conteúdos públicos que se baseiam apenas em crenças pessoais que são apresentadas como factos, que denotam desdém, desprezo por uma herança, falta de consideração, de sensibilidade, de estudo essencial, de aprofundamento, de imparcialidade, e que promovem a deturpação, ora fantasiosa, ora injuriosa, de evidências irrefutáveis.
Constatei que nos meios online existem vários conteúdos portugueses, mais ou menos fugazes, de confabulações tendenciosas e atabalhoadas, onde a etimologia é bastante maltratada e que difundem desinformação grosseira, em tom peremptório e dramático, acerca dos Celtas e da Lenda Arturiana.
Autora e contexto
A autora é Iris Lican Garcia.
Importa contextualizar. Os conteúdos começaram a surgir meses depois da publicação de posts que li em Fevereiro de 2021, no perfil social da autora. No contexto de um repertório eclético, de cariz psicológico, terapeutico e subjetivo, eram promovidas atividades criativas relacionadas com “Ancestralidade e Identidade”. Sem evidências genealógicas nem testes, a Iris anunciava uma “ascendência gaélica” e uma “mescla” genética que incluía um “ADN celta” imaginário, bem como o galego, o francês, e até o sefardita, entre muitas outras variantes regionais e locais, que na verdade são indiferenciáveis. Remeto para Genética e Genealogia.
Super vídeo arturiano
Em posts de Instagram de 19 e 30 de Novembro de 2022, a autora anunciou que estava a preparar um “super vídeo sobre eco-mitologia arturiana”, o qual publicou no Vimeo, partilhando depois a existência de “um vídeo bem grande”. É notória a necessidade de evidenciar um estado “muito emocional”. É claro que um vídeo “bem grande” ou “longo” pode não ser um grande vídeo. Da mesma forma, o facto de ser “muito emocional” pode não ser muito emocionante para quem assiste, com capacidade de discernimento, mas pode funcionar como dissuasor de qualquer feedback que não seja elogioso e que possa trastornar a autora (ler Feedbacks e bloqueios, no final do texto).
O vídeo foi intitulado Quando Arthur era o Soberando Urso Rei Cuidador e publicado a 25 de Novembro de 2022 (vimeo.com/775177809), mas em 2025 acabou com nova capa e retitulado Considerações animistas sobre a lenda Arturiana. Na legenda que o acompanha, pode ler-se, “Eco-mitologia ancestral, animismo e a lenda arturiana como marco da cristianização da Europa Ocidental.”

É claro que, tal como refiro em Origens da Lenda do Rei Artur, é fundamental deixar claro que nenhuma alusão a esta lenda foi escrita antes do final do primeiro milénio. A presença romana e a cristianização não foram determinantes para o surgimento da Lenda Arturiana. Nem a lenda, sendo cristã medieval foi marco da cristianização da Grã-Bretanha ou da Europa ocidental. Veio tarde para isso, com todas as suas referências célticas, pré-romanas e pré-cristãs.
A Lenda do Rei Artur, tal como a do Santo Graal, sempre foi cristã céltica e europeia medieval, mas surgiu de fontes mais antigas e preserva subtis e inequívocos elementos simbólicos de raíz celta, da maior relevância. Alguns deles, a “investigadora”, assumidamente “pagã”, não conseguiu identificar e até atribuiu à cristianização, como no caso da cor sacerdotal e de Guinevere.
A versão da lenda que é apresentada em vídeo está inserida num repertório de cariz psicológico, que se esquiva a verificações. É parte de conteúdos que, por anunciada determinação da criadora, estão predestinados a desaparecer; o que já começou a acontecer, sem qualquer reparo. Infelizmente, sob pretexto de apresentar as suas “Considerações animistas…” vão sendo deturpados os factos históricos, linguísticos e etimológicos relativos aos Celtas, ao domínio romano e à cristianização da Grã-Bretanha, ao surgimento da Lenda Arturiana, às alegadas intenções da sua criação, às suas personagens e aos seus símbolos.
Equívocos e sofismas
Neste vídeo, alegadamente acerca do “simbolismo eco-mitológico” da Lenda Arturiana, nos primeiros quinze minutos, os equívocos linguísticos logo tiveram o seu espaço e foi dito que o proto-celta e o “proto-gaélico” (que nem sequer existiu como tal) não tinham “definitivo de género”. Isto está errado, porque o celta comum contemplava três géneros, sendo um deles neutro e os outros o masculino e o feminino, conforme herdado do sistema triplo proto-indo-europeu, que era baseado no sexo.
Aos 14:00 minutos, evocando tristeza, a “investigadora” observou a cronologia. Lendo os seus apontamentos e com justificada insegurança, refere a chegada dos Romanos à Península Ibérica, em 218 antes de Cristo, e à Grã-Bretanha, entre 55 antes de Cristo e 410. No entanto, afirmou que eles “vão chegando devagarinho à Grã-Bretanha”, e que isso terá sido “600 anos” depois da sua chegada à Península Ibérica, tentando enfatizar que foi muito depois!
Ou seja, fez o cálculo bruto de 600 anos entre um evento e o outro. Contou do início da conquista da Ibéria ao final da presença romana, como tal, na Grã-Bretanha. Apoiou-se nisso para afirmar que a presença romana teria tido tremendas repercussões na Ibéria, antes mesmo de se fixar na Grã-Bretanha. Mais, diz que a Ibéria teria vivido um “período bastante pagão do Império Romano”, mas que “a implementação da presença romana na Grã-Bretanha já é cristã”, muito mais tardia.
Isto é profundamente errado. Na verdade, a primeira invasão propriamente dita da Grã-Bretanha dista apenas 261 anos do início da conquista da Península Ibérica, que terminou com as Guerras Cantábricas, apenas 62 anos antes da principal invasão romana da Grã-Bretanha. Remeto para Ressurgência Céltica Britânica.
A “investigadora” assumiu que essa conquista romana foi cristã e só teve efeitos implementados em 410. Imediatamente, associou a essa falácia a noção errada de que a “estória de Artur” surgiu no ano 500. A partir desse ponto da exposição, o ritmo do discurso acelerou, quando a autora repetiu, com veemência e sem ressalvas, que a Lenda do Rei Artur é “política”. Sem que o motivo de tal afirmação seja compreensível, a “investigadora” disse que foi assim:
“O que a Lenda do Rei Artur narra, e ela é política. Desenganemo-nos que esta estória não tem um valor político. Para nós hoje ela é apenas uma estóriazinha. À época, ela foi escrita precisamente para não ser esquecida e foi escrita com alguns desvios que assinalavam a imoralidade do paganismo, que assinalavam a sua falência, que assinalavam a importância de transitar. Por que é que na estória este último Arthur se casa com Guinevere, uma cristã? Gwenhwyfar é como se diz, em termos etimológicos correctos. Precisamente, porque quando o grande rei pagão se casa com uma cristã, ele vai cristianizar-se, que é o que aconteceu. Ele cristianizou-se para fazer este casamento político, e foi o fim! Foi o fim do rei urso.”
Apresentar a Lenda do Rei Artur nesses termos é seguir um caminho fácil e sensacionalista, fazendo propaganda pagã contemporânea, que em nada é melhor, mais fecunda, mais apaziguadora, nem mais esclarecedora, do que a propaganda sociopolítica inglesa dos séculos anteriores. Que mais não fosse, os missionários cristãos romano-britónicos tinham prioridades e uma dessas prioridades não era escrever um autêntico enredo para «denegrir» o «paganismo», em forma de manuscrito que não poderia ser facilmente reproduzido em número que permitisse difundi-lo, como um folhetim, junto de pessoas que não sabiam ler.
Acerca da rainha Guinevere, que a criadora de conteúdos referiu como sendo simplesmente “uma cristã”, sem conseguir oferecer nenhuma referência diga de alguém que se diz “investigadora”, sobretudo dedicada à etimologia, remeto para Raiz de Guinevere.
No vídeo foi apresentado um alegado “simbolismo eco-mitológico” que denota influências subliminares. À partida, é preciso alertar que não é o simbolismo intrínseco, espiritual e eterno da lenda que está em causa. Ele não pode ser reinventado, porque permanece o que sempre foi e ninguém pode mudá-lo. Portanto, estamos perante uma mera interpretação.
Animismo e o “deus verde”
De seguida, surgiram várias afirmações, centrais na perspetiva “eco-mitológica” da “investigadora”, acerca de um “grande urso”, e o anúncio efusivo de que Artur era um “título!”, do qual não se vê a origem, que será ainda mais arcaica e estará “na noite dos tempos”. Foi descrita, não como hipótese, não como estória, mas como facto, uma determinada estrutura socio-geográfica do Neolítico, que tinha como figura maior o “rei urso”, com os valores morais e as funções que são referidas pela “investigadora”.
No que diz respeito à análise do nome do rei e à alegação pouco original de que seria um “título”, escrevi Arthur e o Tabu do Urso, convidando a uma reflexão bem fundamentada. A associação do rei Artur ao urso tem sido tema de livros de vários géneros, de autores como Edward Frankland, August Hunt, James Wilde, Mark Alexander… Algum são bestsellers amplamente difundidos nas livrarias britânicas.
Veio a entrar em maiores detalhes, alguns minutos depois, trazendo ao contexto um “rei veado”, um “deus sol” e, como não poderia deixar de ser, um “deus verde”. Essas teorias dominam os repertórios de pessoas que estão convencidas da singularidade e, ao mesmo tempo, do caráter ancestral das suas versões, e que propõem ressignificar mitos e lendas. São apresentadas como abordagens originais, em vários contextos.
Na verdade, esta abordagem pessoal do “simbolismo eco-mitológico” pode e deve ser desconstruida, para que se perceba a que fenómeno se deve esta versão, que nada tem de original ou visionária, e muito menos arcaica. Pelo contrário, é bastante livresca, bafienta e oitocentista. É preciso notar que nem toda a eco-mitologia evoca as mesma referências, dependendo do autor e do contexto cultural, mas é comum esta surgir, quando em associação direta com o Paganismo Europeu. O “deus verde”, tal como a referida questão da morte anual, que à semelhança de outros lugares-comuns também é frequentemente comprada à vida ceifada nas colheitas, remete-nos, diretamente, para a influência perniciosa, mais ou menos subliminar, da teoria de Frazer, que se tornou dogma.
Coloquei a hipótese de essa ser uma referência deliberada, por parte da “investigadora”, que também se apresenta como sendo “pagã desde sempre”, porque foi algo que nasceu com ela. Exactamente por isso, tem estado exposta à receção, mesmo que involuntária, dessas noções, através de várias vias e tradições do espectro do Paganismo, nas quais “mergulhou”, conforme nota biográfica de 2012, abaixo. Porém, nunca referiu a teoria de Frazer, nem outras fontes derivadas. No decurso do vídeo pareceu convicta da singularidade e, ao mesmo tempo, do caráter ancestral da sua abordagem.
“Iris Lican é Artista em Movimento, Medicine Woman e Bruxa.
Dedicada ao caminho da Deusa Negra, por chamamento inato. Inicia-se como praticante solitária, aos treze anos. Pertenceu a vários covens de tradições neo-clássicas diversas, explorou as tradições xamânicas da América do Sul, sendo iniciada na tradição Mapuche pela Abuela Luzclara, tendo mergulhado também no left hand Tantra e Yoga.Sentindo a via da Arte, Magia e Sexualidade como indissociáveis forças da criação da vida, de cada individuo, da comunidade e perspectivando o ser humano como indissociável do planeta e do universo. A prática de Iris baseia-se na ideia de eco- paganismo livre: ecologia interior e planetária, arte de ser e estar aqui e agora, liberdade absoluta de sentir, criar e comunicar(-se).
Em Amor, Confiança, Liberdade .”
Perto do final (aos 45:30 minutos), a “investigadora” foi explícita, dizendo que não havia ninguém que tivesse lido que lhe tivesse contado nada daquilo. Portanto, tudo indica que estamos perante uma das muitas vítimas ou casualties de James Frazer. De facto, não me surge outra palavra, porque estas pessoas nem sequer estão conscientes dessa doutrina universal, quase omnipresente, que tem sido normalizada pelo Paganismo e adotada sem questionamentos entre as vertentes mais ecologistas, desde o movimento Contracultura, nos anos 60. Acerca disto, escrevi o artigo James George Frazer e o dogma vegetal.
A influência daquelas teorias está presente na fundação da Wicca, em dezenas de livros do Paganismo e no nebuloso romance best-seller sobre Avalon e a união do Rei Veado com a Virgem Caçadora. Marion Zimmer Bradley mencionou as obras de Frazer e Margaret Murray nos agradecimentos. Estas noções subliminares surgem em séries televisivas e nas mentes de quem nem sequer leu os livros. Aparecem em publicações pobres em verdadeira pesquisa histórica e mitológica, acerca das mais conhecidas lendas célticas, que reiteram o dogma vegetal. É uma de várias doutrinas universais que tentam co-optar as simbologias culturais e religiosas de todas civilizações.
Idealizações dos Celtas
Muitas pessoas nutrem idealizações e refugiam-se em utopias acerca dos Celtas, mas é escusado a autora fazer comparações com outros povos, como os Vikings, para tentar exacerbar que os Celtas não seriam grandes colonizadores (aos 32:10 minutos do vídeo). É incrível que alguém, anunciadamente neuro-diversa e altamente sensível, faça questão de se filmar à beira das lágrimas, para generalizar a ponto de dizer que “nenhum celta” lutou por território, “nunca”. Essas são afirmações arrebatadas de quem não consegue ter a lucidez para se basear em factos contundentes, mas que não hesita em apresentá-las como verdade reparadora de alguma mentira injusta, que nos terá sido inculcada e que devemos eliminar das nossas cabeças. Os pontos-de-vista e as crenças pessoais não devem ser difundidos como, passo o pleonasmo, a verdadeira verdade. Como se tudo o resto fosse uma enorme conspiração.
Os Celtas não forjaram tantas espadas e pontas de lanças apenas para defenderem os animais, a floresta e a família, e depois depositarem algumas delas no fundo de lagos, como oferendas aos deuses ou para as devolverem aos cuidados da Senhora do Lago… Remeto a Migrações Celtas e Celtas da Irlanda.
É notória a transferência sincrética de aspetos simbólicos de outros contextos culturais e a tónica em divindades populares no Paganismo contemporâneo. É evidente, em toda a reveladora expressão da autora, a sua falta de conhecimento aprofundado da Religião Celta, da Lenda Arturiana e da Matéria da Bretanha, entre muitos outros aspetos históricos e linguísticos.
Num outro vídeo, intitulado Calle, a coruja e os tecelãos do chão coração a primeira lunação (vimeo.com/769899925), as complexas migrações celtas foram falaciosamente resumidas numa breve frase, com objectivos muito concretos. Mais uma vez, reporto-me ao exposto em Migrações Celtas.

A 30 de Outubro de 2022, através de um reels no instagram, a autora tinha anunciado um vídeo “longo”, que acabou por ser suprimido sem “reparação”, perante algumas centenas de pessoas que assistiram:
Resumindo o que foi dito aos 04:26 minutos do vídeo intitulado Boa Morte, Samhain e a sabedoria profunda da Ancestralidade (vimeo.com/765423047), a criadora do conteúdo afirmou que é importante que se saiba que existem “várias, várias, várias, várias” línguas dentro daquilo que referiu como “celtismo”, que é um daqueles termos nebulosos, à semelhança de “celtitude”. Foi mencionado um inexistente e contraditório “gaélico bretão”…! Também foi dito que o galaico-português foi a língua que nos ficou do dito “celtismo”, mas na verdade é de origem românica, e que o Mirandês tem origens tribais, quando na verdade é um idioma perfeitamente medieval.
Foi afirmado que existiram “dialetos gaélicos em território ibérico”, o que é simplesmente fantasioso e uma tentativa rebuscada de reclamar para os ibéricos uma “ascendência gaélica”. E que uma dessas múltiplas línguas foi o galaico-português, que “ficou” na Ibéria! Que essa foi a “nossa” língua original, como a da Galiza, durante “muito tempo”, e que a separação do galego e do português pode ser considerada recente, porque aconteceu depois da Idade Média. Remeto para o meu artigo Ogham, Idiomas e Festas Célticas. Conforme esclareço neste texto, usar o termo “celtismo” em relação a povos históricos é um absurdo, porque esta definição apenas se aplica a grupos atuais, surgidos do Nacionalismo Romântico, em particular da Celtic Revival, como o Pan-Celtismo. Tal como no caso do Druidismo, não existiu nenhum Celtismo da Antiguidade.
Quanto às palavras tribo e tribal, são usadas por inúmeras pessoas que as aplicam a tudo aquilo que não sabem definir de outra forma. Aqueles são termos altamente permissivos e o preconceito erudito europeu deu lugar à identificação pagã, ou de qualquer grupo alternativo ou marginal ao mainstream, como sendo “a tribo”. Sobretudo se evoca um certo passado longínquo, pouco conhecido ou idealizado e tido como preferencial a qualquer realidade contemporânea. Alude, também, a múltiplas representações cinematográficas, que inspiram muitas pessoas no Paganismo. Em particular, mulheres, que podem romper com estereótipos milenares e reportar-se, por exemplo, à Guinevere picta, interpretada por Keira Knightley, que foi produzida por Jerry Bruckheimer, com a ajuda dos autores que, sem surpresa, são uma referência mencionada pela autora destes vídeos.
Seja lá o que for o “celtismo” para esta “investigadora”, só existem três Línguas Celtas; o gaélico, o bretão e o manês! Mesmo não sendo “historiadora”, qualquer entusiasta de etimologia e pesquisa histórica devia saber isto. O facto de avisar que não é profissional de uma área académica, não a isenta da responsabilidade pelo que difunde. Fica bem essa franqueza, esse apontamento de modéstia no início do vídeo acerca do “Urso rei”, mas seria escusado declarar o que em alguns casos se torna óbvio, enquanto nos fala daquilo em que acredita, acerca dos Celtas e da Lenda Arturiana, cujos múltiplos e amplos contextos a “investigadora” claramente ignora.
É o que acontece neste vídeo, onde os lapsos de tradução do provérbio “to rip what you sow” e as lacunas ao nível das variantes do gaélico são flagrantes e arrazam o raciocínio exposto. Acontece que a argumentação foi minada por um lapso básico que qualquer pessoa atenta percebeu, mas que a “investigadora” não só articulou para si mesma, como repetiu em frente a uma câmara e deixou em exibição durante cerca de um ano. Falhou a tradução do aforismo, uma vez que sow não significa colher e não pode ser estabelecida nenhuma comparação fonética com Samhain, com o intuito de sugerir que a mais importante festa celta simbolizava a “última colheita” e que essa seria “a própria vida”. O tema da morte anual, como todo o discurso relativo ao ciclo vegetal, logo me sugeriu a referência incontornável de James George Frazer e o Dogma Vegetal.
A autora, perdida na sua ilusão de conhecimento de inúmeras matérias, tentou elucidar-nos acerca a da forma alegadamente correta de pronunciar a palavra Samhain (no vídeo, pronunciado ‘sôuan’)! Segundo ela, seria semelhante à sonoridade de sow, que traduziu por colher, em vez de semear. A pronúncia das palavras gaélicas muda dentro da própria Irlanda, depedendo da província, pelo que não há apenas uma forma correcta de dizer seja o que for, nem aquela adotada nesse vídeo tem qualquer fundamento gaélico irlandês, que é a origem de Samhain, conforme referido no meu artigo Ogham, Idiomas e Festas Célticas. Aliás, em qualquer das três principais formas irlandesas, a palavra soa a sáu-en, tal como pode escutar-se nos exemplos do teanglann, Irish Pronunciation Database, Dictionary and Language Library, e do forvo, The Pronunciation Dictionary, aos quais recorro com frequência, durante os meus estudos.
Para algumas pessoas, mais desconhecedoras do que a própria criadora de conteúdos, a “investigadora” pode parecer sábia e até iluminada, mas – das duas uma – ou desconhece o que foi escrito e articulado por outras pessoas e de como tudo isso a influencia, por várias vias, de forma subliminar, ou inspira-se deliberadamente naquilo que tem lido e escutado para articular versões que nada têm de original, apesar de serem muito exacerbadas em alguns pontos. Raramente alguém inventa seja o que for e estas matérias não surgem por insights nem revelação. Como eu bem sei, há sempre referências, correntes ou tradições que nos amparam o pensamento, quer tenhamos ou não consciência disso.
Esta abordagem está moldada e colorida ao jeito “eco-mitológico”, para se encaixar na corrente criativa que tem vindo a ser difundida. Não se pode dizer que todos os autores de eleição da criadora de conteúdos sejam completamente desconhecidos, uma vez que a “investigadora” mencionou alguns no final do vídeo. Isso pode ser o bastante para explicar as fontes e a abordagem dela. Apresenta-a junto do seu nicho, em estreita colaboração com outras pessoas que aplicam a mesma terminologia, que partilham ideias, parcerias e formações, e que não estão realmente interessadas nos factos relativos aos Celtas, nem nas Mitologias Britânicas e, muito menos, no Ciclo Arturianos da Matéria da Bretanha. A criadora de conteúdos não conhece nem respeita esta herança e devia abster-se de deturpar o que não entende.
Incesto e deturpação
Acerca da referência muito adulterada ao tema do incesto, que abordo em detalhe no meu artigo O Incesto na Lenda Arturiana, foi afirmado que a razão de ser do incesto é desumanizar o paganismo e o “xamanismo celta”. Foram usadas palavras pesadas e o adjetivo “político”, que é repetido ao longo do vídeo, para depois se concluir que existe a tal intenção por detrás dessas narrativas, a qual é preciso entender, para conseguirmos de alguma forma recuperá-las. Acontece que a criadora do vídeo está muito enganada, acerca de muitos aspetos, que simplesmente desconhece.
A autora, com ilusões muito tóxicas, refere o incesto ao minuto 21:05 e diz:
“Há um incesto que começa em Beltane.”
Faz a seguinte acusação grave e infundada:
“Se este incesto terá sido real ou não, nós não sabemos, mas à luz da estória do último grande rei pagão – vamos pensar juntos por que é que há um incesto lá na estória, hum? Porque assim desumanizamos o xamanismo celta, desumanizamos o paganismo.”
De seguida, com esgares e entoação teatral, a “investigadora” caricatura o que alguém pode pensar ou dizer acerca dos pagãos e da “religião” deles:
“São bestas! Cometem incesto! A sua religião diz-lhes para cometerem incesto! Quando o grande rei se deita com a grande sacerdotisa que pode até ser sua irmã! Meia-irmã, no caso.”
Depois, prossegue:
“É claramente político. Não tenhamos ilusões! Não é necessariamente real. Duvido muito que tenha sido real, duvido muito, e o que me entristece é que é uma narrativa que na altura foi usada para denegrir a profundidade e a liberdade espiritual pagã, e que hoje é usada da mesma maneira, para que o xamanismo europeu possa ser visto como uma coisa imoral, disparatada, que não tem razão de ser, as lendas que existem escritas são a desgraça que são, não tem ponta por onde se lhe pegue, e portanto, cada vez que nós resgatamos as narrativas e percebemos com que intenção é que uma estória foi fixada de determinada maneira, nós podemos começar a resgatar os fios condutores, que neste caso, em termos de ecomitologia, são muito importantes.”
Que alguém diga que a “estória” do Rei Artur e uma obra de ficção derivada foram escritas e são usadas para denegrir e desumanizar o paganismo do passado e o Paganismo, ou os xamanismos atuais, é atribuir a estas espiritualidades e religiões uma relevância sociopolítica que elas, há muito e até à data, não têm. Para além disso, referir a Lenda Arturiana como se, no presente, esta herança fosse vista apenas como uma “estoriazinha” e como se as pessoas achassem que as lendas escritas “são a desgraça que são”, é subestimar a sociedade contemporânea, desconsiderando o alcance do encanto e o valor amplamente reconhecido da lenda, inclusivamente, do famoso best-seller. Que alguém diga que, devido a esse mesmo enredo, a generalidade das pessoas ficará convencida de que os pagãos são (…) é inqualificável.
É um solilóquio dramático e irrealista que não me surpreende, por motivos que refiro no final deste post (subtítulo Feedbacks e Bloqueios). Revela imensa preocupação com aquilo que os outros podem pensar e cria um clima de suspeição delirante. Planta palavras contundentes, como sendo atribuíveis a outras pessoas, desconhecedoras e não “pagãs”. Instiga uma ideia de oposição e sentimentos de injustiça ou tristeza, para provar um ponto de vista pessoal e justificar a necessidade de defender publicamente o “xamanismo celta” ou o Paganismo europeu, em geral. Isso não é fazer recuperação nenhuma. É lutar contra moinhos de vento, tomando conta dos dois lados de uma conversa que ninguém está a ter.
Se a esta apresentação retirarmos o sensacionalismo, os apontamento históricos mal preparados, e toda este clima de intriga, ficamos com uma breve estória, com uma malha ecológica muito singela, que não choca ninguém, nem depende de muitos argumentos para fazer algum sentido a qualquer pessoa, seja ou não “pagã”. Daí a ser uma “versão” da lenda, parece demasiado para tão poucos elementos e nenhum encadeamento entre eles, porque nem sequer é exposto um enredo alternativo. Se houvesse melhor pesquisa, depurada de alegações absurdas, seria perfeitamente dispensável toda a deturpação deste legado céltico monumental, que aqui é evocado para preencher um vídeo pouco elaborado do ponto de vista narrativo. Logo à partida, falta-lhe um fio condutor, a “investigadora” só fala de três personagens, passa de um para outro, sem nenhuma âncora, descarta uma quarta personagem como sendo “cristã”, e o resto é o seu habitual repertório sobre “eco-paganismo” e as referências bibliográficas expectáveis.
Possam os Paganismos e os Xamanismos ser mais bem tratados por quem os defende e promove. Em particular, junto de um público um pouco mais jovem e crédulo, que tem vindo a tomar esta “investigadora” por referência no microcosmo de um Paganismo local. Faço votos para que a autora consiga “transitar” para um estado mais salutar, sem autocomiseraçao, sem mania de perseguição, sem exacerbar supostas facções, sem deitar achas à fogueira, sem baixar o nível com insinuações, sem presumir quais são as ideias e motivações dos outros e sem se preocupar tanto com aquilo que alguém poderá achar. Sem deturpar os acontecimentos, a mentalidade, e as intenções de missionários, clérigos e escritores, nem a recepção do passado, a interpretação das lendas e das obras literárias, e as perspectivas das outras pessoas, em qualquer tempo histórico.
Sacerdócios e sacerdotisas
Quanto a questões de hierarquia, relativas ao sacerdócio celta, o assunto é demasiado complexo para ser resumido em afirmações taxativas e apartes exasperados ou teatrais (aos 27:22 minutos do vídeo). É expectável que a autora pense os antigos druidas ou as “sacerdotisas celtibéricas” como as figuras “extremamente acessíveis” e “muito humildes” que gostaria que eles e elas tivessem sido, tendo em conta que, como qualquer vivente, a “investigadora” não conheceu nenhum nem nenhuma. Isto tem a ver com algumas referências bibliográficas, como aquelas mencionadas no final do vídeo, e com as tentativas recorrentes que a autora faz, para estabelecer uma associação direta entre os druidas, o curandeirismo popular e um obscuro sacerdócio ibérico.
“Não eram figuras hierárquicas. Não eram! Nunca foram. A ideia de que – primeiro, deixem-me cá dizer uma coisa super importante, o sacerdócio para os celtas não é, não é, aquilo que nós vemos hoje em dia como sacerdócio, estas mulheres que estão hierarquicamente acima das outras. Mata essa ideia. São pessoas, são curandeiras. As nossas curandeiras tradicionais estão muito mais perto das sacerdotisas do que qualquer pessoa que tenha feito um sacerdócio xpto pa ganhar um título. São mulheres que estão ao serviço das suas comunidades. Que se comprometem em trazer o saber herbal, o saber medicinal, as orações, os contos, em aportar esperança, em aportar fé, em aportar os saberes de como cuidar da terra para subsistir e para ter cuidados medicinais. São pessoas que estão completamente ao serviço e que o objectivo delas não é substituir um guru. Não é essa a figuras das nossas sacerdotisas celtibéricas tá? Isso não existe. Tal como os druidas estão exactamente no mesmo patamar. Não existe esta hierarquia de ai eu é que, eu é que sei, há hã, e vou-te dizer, vou-te informar, vou-te explicar. Não! Pelo contrário. São figuras extremamente acessíveis, muito humildes…
Posso dizer que, actualmente, talvez a obra que melhor entende a figura do druida é Tolkien. Quando nos aparece Gandalf, Gandalf tá muito pouco preocupado em contar a verdade e em superiorizar-se a alguém. Ele tá muito mais preocupado em cuidar o equilíbrio, mesmo se anda mal vestido. Não é isso que importa. Ele põe-se ao mesmo nível de todos os outros, porque ele está ao mesmo nível de todos os outros, e no momento em que deixar de estar isso será um problema, e quando ele passa de cinzento a branco, ele continua ao serviço, ainda mais.”
Tendo em conta o tom adotado, a “investigadora” poderá ser suscetível a demonstrações de conhecimento e a clarificações públicas, as quais poderá facilmente tomar por crítica, agressão, ameaça, ou por uma tentativa de alguém se “superiorizar”, para referir o termo utilizado no vídeo. No que me diz respeito, eu não estou aqui para bater no peito nem dizer “Eu é que sei, e vou-te dizer, vou-te informar, vou-te explicar”. Não. Ao contrário do que esta autora nos traz, essa postura não se coaduna com a minha maneira de ser nem com o meu serviço. Eu estou aqui, a fazer este trabalho de “reparação”, porque me preocupo e não desisti, perante a indiferença ou até a boçalidade. Faço-o de boa-fé. Sugiro a leitura de Druidas, os Guardiães.
É estranho quando alguém, que evidencia não ser particularmente conhecedora do contexto céltico, tenta passar a ideia de que existe incompreensão generalizada acerca do sacerdócio no tempo dos Celtas, o qual descreve de acordo com os seus saberes, as suas propostas formativas, circunstâncias e crenças pessoais que nada têm a ver com os Celtas (aos 41:58 minutos do vídeo).
O que está em causa não é apenas a fantasia e a confusão de quem comparou os antigos druidas a Gandalf, o que é um lugar-comum. Estamos no domínio da subjetividade, que não é criatividade, porque é tomada por realidade pela própria pessoa. Tal como no momento em que a “investigadora” afirmou com euforia que Artur era um “título”. Nada mais, nada menos do que o título ancestral do “grande rei pagão”. Depois, a “investigadora” vem revelar-nos que Merlin quer dizer “aquele que se torna árvore” e que foi “o grau supremo de sacerdócio”, mas que não existiu em nenhuma sociedade celta, porque esse nome foi criado por Geoffrey of Monmouth, no século XII, e a sua etimologia não tem nada a ver com árvores. Esses e muitos outros devaneios, proferidos sem reservas, como se a verdadeira história dos Celtas estivesse a ser revelada a um público leigo ou equivocado, só têm lugar em círculos de crédulos.
Mais adiante, diz também que Morgan seria intercambiável com a figura de mouras vindas do Norte de África para o território ibérico e que significaria “aquela que atravessa as águas”. Isto está incorrecto, apesar da associação da génese do nome com aquele elemento. As mouras de que a “investigadora” fala nem sequer têm nada a ver com as moiras que eu refiro em Legados Célticos do Larouco. De resto, entre outros equívocos, que no cômputo geral acabam por ter menor importância, Mórrígan não se traduz por “a Grande Corvo”, conforme foi dito em vídeo, mas sim por Grande Rainha, embora os corvídeos lhes sejam associados. Não estou a ser exaustiva e poderia fazer mais reparos, neste artigo, repleto de clarificações.
A ideia de “título” não é original, tendo em conta que para Christine Campbell-Thomas, sacerdotisa iniciada da ordem mágica fundada pela autora e ocultista Dion Fortune, o Merlin e a Morgan também eram “titles” de sacerdote e sacerdotisa, mas nesse caso atlantes e não celtas. Para mais, sugiro a leitura de Merlin de la Mer.
Os conteúdos incluem comentários depreciativos, com uma interpretação negativa, muito estreita, das supostas motivações de quem procure treino sacerdotal “xpto”. A Iris não se referiu a ninguém nem a nenhum sacerdócio em particular. Apenas fez uma generalização grosseira. Para enaltecer as curandeiras tradicionais que, segundo disse, “estão muito mais perto das sacerdotisas do que qualquer pessoa que tenha feito um sacerdócio xpto pa ganhar um título”, acabou por depreciar “aquilo que nós vemos hoje em dia como sacerdócio. Como estas mulheres que estão hierarquicamente acima das outras”.
Ou seja, aquilo que a criadora do vídeo vê como sacerdócio. Se substituirmos as palavras sacerdócios e sacerdotisas por cursos, certificações, terapeutas, formadoras, facilitadoras, professoras de yoga, mulheres-medicina, mentoras, ou quaisquer outras que impliquem um treino formal ou informal e resultem num “título” que confira um estatuto, vai dar exactamente ao mesmo. Não passa de uma opinião tendenciosa e maledicente.
Evoco Jean Shinoda Bolen, que nos fala acerca de um «campo mórfico», ao qual qualquer pessoa pode aceder para recordar e resgatar, por via da intuição, a consciência da Sagrada e as práticas rituais de tempos matriarcais, aos quais não podemos aceder por via da investigação. Em nenhum momento ela menciona o papel das linhagens e dos factores hereditários nos sacerdócios. Exactamente, porque esse «campo mórfico», à partida, está acessível a todas as pessoas. Não quer dizer que a hereditariedade e as linhagens sacerdotais não sejam relevantes, mas não podem ser evocadas para escalonar, elevar, nem depreciar, quaisquer pessoas que atendam os seus chamamentos sacerdotais.
As mulheres que procuram treinos sacerdotais e se apresentam sob a designação sacerdotisa são, por isso mesmo, alvos fáceis de ridicularização. Em particular, se lhes falta a ligação a contextos rurais mais remotos e se elas não referem nem conhecem muito acerca de uma possível ascendência vagamente conectada com alguma forma de sabedoria ancestral. Sobretudo, isto acontece no âmbito das espiritualidades de Avalon, que é excessivamente, embora não sem motivo, associado à recriação de um romance best-seller, largamente popular. Num sentido lato, para além da mofa de que sempre foram alvo, em artigos de tablóides britânicos, surgem estas insinuações de que elas apenas querem um título para se posicionarem hierarquicamente acima de outras mulheres e se projetarem melhor no meio das espiritualidades.
É perfeitamente legítimo que queiram dar a conhecer a sua faceta sacerdotal e é compreensível que se afiliem a contextos que lhes proporcionem um senso de comunidade, de estarem entre outras pessoas que partilham perspectivas semelhantes e com as quais podem encontrar caminhos para se aprimorarem. Em particular, se têm quotidianos desfasados desses contextos e estão rodeadas de colegas de trabalho e familiares que não percebem essa dimensão.
Convenhamos que, a não ser aquelas que têm tempo de lazer e um pecúlio para investir nesta aventura, a maioria das sacerdotisas, mesmo nos arredores de centros espirituais como Glastonbury, não pode dedicar-se exclusivamente ao seu sacerdócio e a actividades recreativas ou formativas, em entornos privilegiados; no que respeita à localização, ao contacto com a natureza, à isenção de horários impostos por entidades patronais, e à liberdade para viajarem. Tão pouco podem sacrificar o modo de vida do qual dependem para desenvolverem os seus dons da forma como gostariam.
As generalidade das sacerdotisas, oriundas de várias irmandades, templos e linhagens, não estão alcandoradas em nenhum estatuto, nem fizeram formações ou espirais para “ganhar” um título. Por um lado, se os títulos sobem à cabeça de algumas pessoas, isso pode significar que, a curto prazo, elas irão ter uma desilusão, quando perceberem que as suas vidas não se alteram pelo simples facto de se designarem desta ou daquela forma; muito menos, por se aproximarem de personalidades desses meios sacerdotais com quem muitas gente gosta de tirar fotografias!
Por outro lado, quando alguém apenas se refere aos estudos e treinos sacerdotais como sendo passíveis de serem usados para atingir um fim tão fútil, envia a mensagem subliminar de que esses sacerdócios são superficiais e que essa formação será inútil. Especialmente, face a outros ensinamentos práticos, que podem ser complementares ao treino sacerdotal, mas que não o substituem e não conferem o mesmo senso de afiliação nem de linhagem que muitas pessoas procuram.
É injusto com toda a gente, quando alguém tenta passar a ideia de que existe a tal incompreensão acerca do sacerdócio no tempo dos Celtas. Como se houvesse um antagonismo entre os sacerdócios das espiritualidades actuais e esse passado, por alguns idealizado. Sobretudo, soa a incoerência e deslealdade, quando as afirmações são proferidas por uma mulher “pagã” que se relacionou e se relaciona com sacerdotisas, iniciadoras de linhagens e fundadoras de templos, que facultam treino sacerdotal a centenas de pessoas cujas motivações ninguém tem o direito de pôr em causa.
Ficam a ecoar essas palavras, que suscitam várias dúvidas. Só por si, o verbo “ganhar” evoca a ambição, a ganância, a competitividade, e a necessidade, nomeadamente no plano financeiro. Não se trata, sequer, de adoptar um título, de alcançar um título, muito menos de recuperar um título, nem de resgatar um título, para tentar sair do armário das espiritualidades ocultadas e perseguidas, superando qualquer timidez e enfrentando qualquer preconceito, ao assumir publicamente uma designação ou um título. Nada disso. Apenas se alude ao objectivo de, “ganhar” um título, no sentido de obter vantagem e ascendente hierárquico sobre as outras mulheres.
O “título” é apresentado negativamente e depreciado. Portanto, quem adopte qualquer designação que a autora ou alguém considere um título, fica associado a essa carga pejorativa. Vamos fazer insinuações acerca das motivações para alguém fazer qualquer curso? De resto, um pseudónimo ecléctico, um nome artístico ou um nome mágico, com o qual uma pessoa se apresenta ao mundo e pelo qual se torna conhecida, pode ser como um título que serve para suscitar curiosidade, se destacar e afirmar associações étnicas e espirituais inerentes à etimologia desses nomes. Talvez se possa prescindir de um título, se puser de parte o nome próprio de registo e optar por se renomear como o nome de uma divindade, ou outro, que seja alusivo a uma iniciação numa das muitas tradições étnicas, vulgarmente chamadas de “xamanismo”.
É escusado alguém colocar-se na posição daquela que, por razões hereditárias, estará naturalmente “muito mais perto das sacerdotisas” de outrora e, por isso, será muito melhor fonte de saberes, e até de linhagem sacerdotal, do que aquelas que só têm “um título” porque completaram formações ou uma série de espirais. Alguém que, assumindo que os outros têm esta ou aquela ideia, vem dizer a todos os que entendem português como era, realmente, “o sacerdócio pros Celtas”, e como eram os druidas e as elusivas “sacerdotisas celtibéricas”, convenientemente caracterizadas à imagem das “curandeiras tradicionais” das regiões das Beiras, e de acordo com formações e práticas ao nível do “saber herbal” e dos “cuidados medicinais”. Com menção, também, às “parteiras” e àquelas que “apoiam no nascimento”, como as doulas. Naturalmente!
Se é que alguém sabe de quem se tratavam, seriam essas elusivas “sacerdotisas celtibéricas” tão diferentes das outras que, na Antiguidade, exerciam dons divinatórios? Não me refiro a noções de Astrologia, essenciais aos cultivos, mas sim a augúrios que se faziam de várias formas, incluindo com entranhas de animais, lançamentos de seixos e conchas, através da interpretação do voo das aves, em espelhos de água, na luz reflectida nos ribeiros, e comunicando com os mortos. Nada que diga respeito às “curandeiras tradicionais”, conforme foram descritas, que não eram dadas a sortilégios.
Investigações e considerações
Em vez de sensacionalismo, animosidade, presunção, autopromoção implícita, e sentimentalismo gratuito, que nada tem a ver com a sensibilidade do intelecto espiritual, deve ser feito um investimento prévio e progressivo na qualidade intrínseca dos conteúdos. Isto está relacionado com a atenção, o detalhe, o rigor, a fundamentação, a veracidade, e o nível do discurso. A subjetividade é traiçoeira, quando o estudo e a reflexão são descurados. Nem tudo o que dizemos e escrevemos tem de ser uma tese, mas ninguém pode isentar-se do compromisso implicitamente aceite quando se pronuncia em público.
Sem metodologias, e muito menos filtro de auto-engrandecimento, com mais ou menos vocação, todos podem ser “investigadores”, ler os seus autores de eleição e falar dos seus “temas preferidos”. Mesmo sem qualquer graduação nem um percurso académico consistente, qualquer pessoa pode ser estudiosa auto-orientada, sobretudo de fontes secundárias e terciárias, visitante ocasional em bibliotecas e arquivos nacionais e municipais, museus, monumentos, centros interpretativos, núcleos arqueológicos e sítios megalíticos.
Porém, quando uma pessoa se apresenta como “investigadora” autodenominada, não basta alegar que é “alguém que investiu muito tempo em leitura e pesquisa histórica, sobretudo, do ponto de vista da etimologia”. É essencial referir o espectro abrangido pela sua investigação ou o seu labor, uma vez que ninguém abarca tudo, mesmo que os seus “temas preferidos” sejam inúmeros e variados.
Para mim, como para qualquer pessoa realmente interessada em matérias arturianas, célticas e indo-europeias, é muito fácil sinalizar devaneios e fazer clarificações, para facilitar a “reparação” possível destes e de quaisquer outros conteúdos. Não é preciso ser “investigadora”. Nem sequer académica. Basta ser apreciadora, leitora, estudiosa informal. A Herança Celta e a Lenda Arturiana, de uma forma muito particular, têm sido a maior parte da minha vida e são intrínsecas à minha existência. Não são apenas “um dos meus temas preferidos” de há alguns anos a esta parte.
Veja-se esta, esta, esta, esta notas biográficas de Iris Lican, entre outras que se encontram online, que têm mais de dez anos e onde não se lê uma palavra acerca da Lenda Arturiana, dos Celtas, de Glastonbury, nem de peregrinações por lá, com mulheres que “viajam há mais de uma década pelos caminhos celtas neolíticos ingleses”. Isto é muito relativo, tendo em conta os conteúdos em questão, que carecem de muita “reparação”.



Para além das questões linguísticas, filológicas e etimológicas, que são complexas e discutíveis, é essencial o conhecimento integral e integrado do Ciclo Arturiano da Matéria da Bretanha. Uma pessoa que não tenha qualquer entendimento, nem o mínimo interesse, no âmbito da Literatura Arturiana, que é largamente cristã, não pode apreciar nem sequer respeitar o que simplesmente considera dispensável ou desprezível.
Quanto a optar por gravar vídeos, a partir do momento em que são gravados, ficam congelados no tempo. Não há nada mais distante da oralidade antiga e daquilo que os povos arcaicos poderiam prevêr, pois pode ser reproduzido e registado nos mais variados arquivos. A “investigadora” nunca demonstrou saber que os druidas usavam a escrita grega para fazerem inúmeros registos, o que nunca ameaçou a oralidade, o secretismo, e a escrita da magia encantatória.
Apesar da suposta efemeridade dos vídeos, dificilmente desaparecem sem deixar rasto. Trata-se de um formato monolítico e mais imutável do que um artigo escrito, que oferece a possibilidade de adicionar notas de edição, sem limite temporal. Isso serve muito melhor o “fluxo” de pensamento, the stream of consciousness, e a frequente necessidade de complementar pesquisas com novos dados. Em cerca de quatro anos, a “investigadora” não demonstrou a necessidade de fazer qualquer adenda ou ressalva ao que foi dito. Estagnou.
É natural que os vídeos e publicações venham a desaparecer do olhar público, à medida que se tornarem inconvenientes, constrangedores e inúteis para quem os criou. Assim que os temas perderem o interesse para pessoas volúveis, que se voltam para novos estímulos, movendo-se de acordo com modismos, tendências, e a necessidade de cativar público para novas iniciativas. Aconteceu com, pelo menos, um dos vídeos que refiro.
É claro que não devemos esperar que os micro-influenciadores e as personalidades eclécticas, de vários nichos, que se reinventam ao sabor de várias influências, que promovem uma pletora de propostas, e que atraem públicos heterogéneos de milhares de pessoas, sejam fontes fidedignas de informação acerca dos Celtas, da Lenda Arturiana, de Ancestralidades Célticas ou Etnicidade Genética.
A expressão Cardiac Celt, da autoria de Marion Bowman, que ensina estudos religiosos, refere-se a pessoas que simplesmente sentem nos seus corações que são célticas e que têm essa filiação espiritual. Esse sentimento pode gerar grande necessidade de afirmação pública, de acordo com aquilo em que acreditam. Isto pode ser inebriante e até tóxico, quando se transforma em invencionismo, negacionismo, furor ideológico e idealização arrebatada, ou mesmo fanática, levando à rejeição de factos.
Devem ser evitadas as extrapolações e inferências por corroborar. Serem simplistas acerca de assuntos complexos, como se falassem de certezas, em vez de hipóteses ou de completas incógnitas, denota incompreensão e desleixo em matérias que requerem aprofundamento. Sobretudo, no que concerne à Ancestralidade, aos druidas e aos Celtas, em geral. Revela lacunas no entendimento de premissas e conjunturas fundamentais, que devem ser contempladas, antes de se afirmar seja o que for, relativamente às migrações, à sociedade, às linguagens, e à espiritualidade destes povos, que são nossos ancestrais coletivos.
Acredito que o multivocalismo e as diversas visões podem gerar discursos válidos, acerca da relevância das heranças ancestrais para as espiritualidades atuais. Em particular, no vasto espectro do Paganismo. Para isso, é essencial que estejam ancorados no respeito pelas fontes disponíveis. Sem elas, ficaremos mais vulneráveis às confabulações, aos sofismas e logros, às teorias da conspiração, aos sensacionalismos e sentimentalismos cegos.
Bloqueios
Eu não interfiro em espaço alheio para dar opiniões, nem envio feedback a alguém com quem não tenho contacto pessoal. Muito menos, se não existir a perspetiva de qualquer conexão recíproca, como por vezes acontece nas redes sociais. Sobretudo, quando estabeleci os meus próprios limites em relação a alguém que teve comportamentos injustos e abusivos.
No início do vídeo acerca do “Urso rei”, a autora declara:
“É claro que eu fico super feliz de receber os vossos feedbacks sobre isto. E é claro que vocês podem completamente dismiss, não é?… Não vos interessar esta versão. Pra quem toca toca e pra quem não toca não toca. Tá tudo bem.”
Os “vosso feedbacks“. Eu não estou incluída. Repare-se na sugestão para “completamente dismiss“, se a versão apresentada não soar bem.
Cabe-me dizer que, em 2019, sob pretexto de rejeitar um pedido de publicação num grupo que ela co-administrava, a Iris abordou-me em privado, com uma mensagem de voz em dois trechos, que me foram enviados à 1:23, hora da madrugada, quando eu tinha o meu primeiro bebé de um ano, o Artur, para amamentar e cuidar. A Iris sabia disso, mas não teve qualquer consideração nem contemplações. Assim que eu vi a notificação, senti um arrepio pelas costas e nuca, que é uma das minhas manifestações sensitivas de alerta.
A Iris deveria ter dominado os seus impulsos, coibindo-se de gravar tudo o que lhe veio à mente e de me enviar um solilóquio moralizante, num tom de irritação mal-contida, apenas para dissertar amargamente acerca do que ela achava da minha pessoa, em vez de comentar construtivamente acerca daquilo que eu alguma vez escrevi. Porque foi isso que fez, à boleia do meu pedido de publicação! Depois de um seco “Olá Andreia…”, disse que o grupo não servia para “promover personalidades”. Esta é uma forma ofensiva de começar qualquer comunicação e eu não encaixo nessa designação.
O problema não é ter rejeitado o pedido de publicação. O meu pacífico texto, “O lugar onde vivo é Território Sagrado“, é acerca da natureza do meu lar e eu mencionei brevemente uma divindade da Antiguidade, que no caso foi Hécate, a propósito da raíz comum da palavra hectare. A justificação que a Iris me deu para rejeitar o post foi que aquele grupo não era sobre Paganismo. A Iris disse que havia membros de várias religiões e espiritualidades, muitas das quais sentiu necessidade de referir, numa cadência pausada, como se estivesse a ler uma lista que nunca mais acabaria. Pouco depois, eu desliguei a reprodução do áudio, como medida de autodefensa psíquica.
A minha resposta escrita foi curta, dizendo que não escutara a mensagem toda, que não iria ficar a escutar acusações, lamentando a interferência, e desejando boa sorte para uma causa que era de todos os membros daquele grupo. Eu retirei-me do grupo Guardiães da Terra (alterado para Teia da Terra), no qual tinha sido convidada a entrar, por Lila Nuit (Lila Moreira), exactamente a propósito da realização de um círculo para visualizar, por exemplo, “o Homem Verde, Deus Veado e a Deusa Mãe, Corça”. Ora, se isto não é Paganismo, eu não sei o que é!


A própria Iris publicou no grupo acerca do que aconteceu durante aquele círculo de Junho de 2017. Eu podia continuar a mencionar e a trazer aqui registos de outras publicações da Iris, como esta de 24 de Agosto de 2017, que ela levou diretamente do perfil pessoal para o grupo (dela). Afinal, os posts de uma moderadora ou co-administradora não estavam dependentes de nenhum pedido de publicação, nem eram filtrados por ninguém. Qual beata pagã em plena campanha anti-abraâmica, a Iris não teve receio nenhum de ferir as susceptibilidades dos membros que louvassem o que ela se atreveu a chamar de “divino distante e abstrato”, como se essa fé fosse incompatível com manifestações de louvor à “Mãe Floresta Viva”:
“A folhagem ou a Mãe Floresta Viva ( assim é denominada uma das faces da Deusa Druídica) pereceu, e é agora cinza.
(…)
Tempo de louvar de novo a Mãe Floresta Viva e não um divino distante e abstracto. Mas a Divindade Viva e Pulsante desta Vida Mãe de que somos parte.”

No entanto, em Julho de 2019, às tantas da madrugada, eu deveria ficar a saber que o grupo não é sobre Paganismo e que o meu texto era inapropriado e até podia incomodar membros de inúmeras religiões. Exactamente aquele grupo, dinamizado por várias pessoas, incluindo algumas “pagãs” fervorosas e amplamente conhecidas por promoverem eventos e conteúdos relativos aos Xamanismos e Paganismos. Claro, porque o grupo associativista é só acerca da defesa da “Mãe Terra”.
Puro nonsense.
De resto, Iris e Lila promoviam as suas iniciativas por vários meios e o marketing delas era bastante intensivo. O que não falta nos meus registos de email daquele tempo são convites para gostar de páginas, aderir a grupos, e participar em eventos criados, geridos e co-administrados por elas. A Iris, em particular, sempre difundiu o seu repertório relativo ao “eco-paganismo” por todos os meios possíveis e de forma nem sempre inofensiva, como no caso dos conteúdos perniciosos referidos nesta publicação.
Apenas dez dias depois de me ter enviado a mensagem, a Iris comentou de forma apreciativa uma interessante publicação de outra administradora do grupo Teia da Terra, apresentando um projeto pessoal, que referia o “animismo” e que tinha como elemento central um vídeo intitulado “Praising Life Through Death / Louvando a Vida pela Morte – Paganismo Nórdico“.
Outra partilha da Iris no grupo, em Agosto de 2019:

Algumas semanas mais tarde, seguiram-se comentários com insinuações na página pública do meu blogue, que considero uma falsidade e uma petulância. São uma inversão do que se passou e contraditórios da terminante mensagem de desapreço, que ninguém enviaria de madrugada a alguém que quer manter no seu entorno. Àquela data, eu nem tinha escutado tudo, para me proteger, e só decidi fazê-lo sete meses depois, em Fevereiro de 2020. Nem queria acreditar no que escutei. Bastaria dizer que a Iris sugeriu que eu a removesse da minha lista de contactos, o que não aconteceu. Foi então que fiz registos de tudo, incluindo da troca de comentários na página pública do blogue. Se eu estivesse inteirada de toda a mensagem, em Julho de 2019, a minha resposta a estes comentários públicos não teria sido tão branda e cordial.
Segundo as palavras da Iris, aquilo que ela leu no meu texto ou no blogue foi encarado como “crítica” e “falta de humildade”. Aliás, diz repetidamente que eu deveria ter “mais humildade”. Não sei se foi porque no texto eu referi detalhes do entorno natural integrante do meu lar e propriedade mista de um hectare, perto de Lisboa, ou por outro motivo. Nunca me disse exactamente a que isso se referia; um post ou um assunto em particular. Na mensagem só diz, “Eu não leio tudo o que escreves…”.
É óbvio que não gostou do que leu e, pensando no que eu escrevi ou na forma como escrevi um determinado texto no passado, se calhar ela tinha alguma razão para isso. Eu não tenho problema em relembrar tudo o que, em dado momento, publiquei no blogue, mesmo que não faça mais sentido e eu pudesse ter optado por não me pronunciar acerca de uma situação que, por motivos que desconheço, estava a acabar. Seja como for, tudo o que referi correspondia à realidade. Quem não deve, não teme.
Durante uma breve e rara troca de comentários na thread da publicação dela do dia 10 de Outubro de 2017, perante uma divergência, a Iris escreveu um elaborado comentário em inglês (ver abaixo), mas como eu fiz ainda outro comentário, ela acabou por estalar o verniz e escrever em português, em jeito de fim de conversa e com aspereza, “fica com o que te serve e deixa o que não te serve”. Ou seja, “dismiss“. A publicação foi a seguinte e eu mesma apaguei os meus comentários e, consequentemente, essa resposta à resposta da resposta…, que já nem teve direito a notificação por email:
Aquela frase da Iris reavivou uma situação que eu calara completamente e foi o mote para o texto, “Retiro, o que me faz espécie”, escrito no dia 20 de Outubro de 2017, que pode ser lido, entre outros, neste registo da Wayback Machine. Nesse Outubro fazia exactamente um ano que eu tinha estado presente, com mais oito mulheres, numa “imersão” de fim-de-semana, co-organizada pelas duas amigas. Eu estava no primeiro trimestre de gravidez, com as hormonas saltos, e reagi de forma relativamente rápida, que não é habitual. O post ao qual me refiro teve a ver com a minha limitada experiência de “centros de retiros” portugueses e do local onde decorreu a iniciativa, ao qual a Iris se referiu, numa das suas notas biográficas, com algum exagero, como sendo “a retreat center in nature“. A imodesta apresentação que em tempos esteve publicada acerca da Iris na plataforma Goddess Temple Teachings, referia com grande ênfase numérico:
“In Portugal Iris has been founder and has directed, for the past 14 years, a training center for ecology, therapy, art and spirituality having received thousands of students and teachers from all over the world.

Conhecendo centros de retiros em Glastonbury e arredores, em particular EarthSpirit Retreat & Centre, e Chalice Hill House, “a retreat center in nature” capaz de receber “thousands of students and teachers from all over the world“, desde 2013, dá uma ideia bastante diferente da realidade da moradia polivalente com anexos, yurt, cúpula geodésica, e pequeno dormitório, em cerca de 1500 m² de zona urbana habitacional tipo 2, na Rua dos Afoitos 3, da Praia das Maçãs, na freguesia de Colares, nas imediações de muitas outras moradias e prédios, algumas áreas de pinhal e hortas privadas, e a boa distância volante do bosque serrano. Haja alguma humildade…!
Até hoje, aquele endereço consta dos registos públicos como sendo a sede da Associação Senhora da Azenha, oficialmente registada em 2013, com o código de atividade (CAE): 94991 – Associações culturais e recreativas, que tem por descrição corrente “Senhora d’Azenha – Centro de Artes e Ofícios do Mundo”, conforme se pode ver na divulgação de eventos passados e nos registos do website desativado. A possibilidade de pernoitar no local, num espaço com seis beliches, um sofá, cadeiras, e um pequeno WC com um duche de cortina (toalheiro elétrico e desumidificador), que recebia até doze ou treze pessoas de cada vez, era uma opção incluída no valor sliding-scale da iniciativa e era apresentada a quem se inscrevia em “intensivos” ou “imersões”. Não era um hostel nem um alojamento local de caráter turístico. Nunca foi essa a visão do coletivo. Dependendo do número de camas, as associações podem oferecer alojamentos pouco expressivos, isentos de licença turística, mas apenas para atividades internas, com os seus sócios.
Fizemos refeições frugais, preparadas com sensibilidade pela facilitadora Lila, na cozinha doméstica, que nunca visitámos. Eram servidas no anexo, com mesa longa, bancos, louça, bancadas e lavatório para os utilizadores fazerem o washing-up, da melhor forma possível. Pernoitámos no espaço de garagem envidraçado convertido em dormitório. Não sei qual era o enquadramento legal neste caso. O facto é que aquela moradia, que as organizadoras habitavam em família, funcionou durante alguns anos como uma espécie de “centro de retiros”, embora essa categoria não exista em Portugal. Há uma imagem do dormitório no registo do antigo website da associação. Na sequência do texto que escrevi no blogue em 2017, para que ninguém que não conheceu o local fique com uma ideia errada, nem melhor nem pior, fica o meu apontamento fotográfico, nunca antes publicado, que foi feito para memória pessoal da experiência, com o cuidado de não invadir a privacidade de todas as participantes. O beliche à entrada da porta foi aquele em que eu pernoitei.






Eu não estou só habituada a unidades hoteleiras e cottages&barns do século XVII, como existe em EarthSpirit e que refiro no meu texto Germinar sementes de comunidade, de 27 de Outubro de 2017 (também registado na Wayback Machine). Tive experiências breves em Backpackers a abarrotar, em Penzance e Glastonbury. Não vale a pena mencionar outros destinos. Só para dar um exemplo exactamente no mesmo entorno, eu morei em Rio de Mouro e cresci nas imediações de Sintra. As primeira férias da minha infância, no início dos anos oitenta, foram passadas na Praia das Maçãs, na pitoresca Quintinha do Pedro, na Estrada da Tomadia, bem pertinho da Rua dos Afoitos, entre pessoas humildes e generosas, verdadeiras saloias que vendiam bolos na praia e passaram a vida inteira naquela localidade, antes de qualquer febre imobiliária e gentrificação da vizinhança.
Eram outros tempos, havia muito senso-comum, mas ausência de vistorias contra incêndios, normas estritas de segurança, condições de higiene, saúde pública, e urbanismo, que constam do Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU)e do Regulamento de Segurança Contra Incêndios em Edifícios (SCIE). Fotografei a Quintinha do Pedro, no último dia da “imersão”, quando me esgueirei de manhã muito cedo, até ao pequenino supermercado Camarão, para espairecer da irritação crescente e comprar comida, depois de mais uma noite sem dormir. Naquele momento, eu estive para me ir embora mais cedo. Desde o dia anterior, sentia-me exaurida e sabia que seria quase impossível para mim participar na saúna Temazcal, à qual acabei por assistir, junto da fogueira que foi ateada no logradouro da moradia, num dia quente de Outono, em pleno Parque Natural Sintra-Cascais!

Quem organiza centenas de eventos por onde passam, alegadamente, milhares de pessoas de todo o mundo, deve saber tudo o que está a fazer e quais os seus motivos para oferecer actividades que não se coadunam com a área urbana em que o seu “retreat centre in nature” está inserido. Atividades que se tornaram populares e que outras pessoas organizam, em ambientes mais propícios. Afinal, algumas coisas têm a ver com o mais elementar respeito por normas que são impreteríveis para quem se preocupa com aqueles que acolhe e pelo seu entorno. Normas que muitos participantes destas iniciativas ignoram ou preferem esquecer, durante certas ocasiões. Há mesmo quem tenha especial prazer em organizar ou participar de iniciativas que desobedecem a vários limites impostos, com pessoas que pensam exactamente da mesma forma e que nunca irão tecer-lhes nenhuma “crítica”.
Eu tenho algum conhecimento deste contexto urbanístico e populacional, porque cresci e vivi durante vinte e cinco anos a testemunhar a transformação avassaladora do concelho. Em 2019, investi fundos e esforço pessoal na região saloia de Sintra, devido ao meu interesse por casas antigas. Depois de alguma procura, encontrei à venda uma humilde casa de pedra tradicional, parcialmente renovada, habitável, com arribana, logradouro, e uma vista panorâmica para a serra. Visitei-a no meu aniversário, com o meu bebé de ano e meio na Manduca, quando estava prestes a engravidar novamente. Fiz uma oferta e comprei-a no mês seguinte, mas por razões subtis nunca consegui torná-la intrinsecamente minha, nem sequer passei lá uma noite!
Queria que os meus filhos tivessem memórias de infância nos locais onde fui criança. Tinha em vista o lazer esporádico e não o negócio dos alojamentos, nem atividades coletivas em ambiente domiciliar. Prezo muito a privacidade familiar e as dinâmicas do meu lar. Nunca quis fazer nada disso numa casa minha, por mais espaço que tenha. Por fim, cinco anos depois, conclui que aquele imóvel nunca seria compatível com os nossos desejos e necessidades. Todo o meu empenho, o meu sonho e o investimento na reabilitação terminaram, por bom-senso e cansaço, com uma venda rápida e recompensadora, numa altura de grande procura. Encontrei a paz de espírito, apesar de saber que muito do património popular edificado do concelho está em risco, mesmo em áreas de reabilitação urbana. Foi um desfecho libertador e feliz.
Entretanto, habituei-me a acompanhar a oferta imobiliária. Tive oportunidade de observar várias infrações, tanto ingénuas como oportunistas, que comprometem o património e a propriedade alheia, de formas irreversíveis e incontornáveis. Aprendi muito acerca de IMT, de ARU, do RGEU, do PDM, do SCIE, do Regulamento Municipal do Uso de Fogo e Limpeza de Terrenos, e de inúmeras regras em vigor no delicado equilíbrio do Parque Natural Sintra-Cascais, que infelizmente não é Parque Nacional, como o PNPG, que também tem muitos problemas devido ao laxismo e a infrações. Estar inserido na área protegida do PNSC nunca quis dizer que se vive em todo o lado como na natureza luxuriante da encosta norte da montanha, onde fica a maior parte dos palacetes e das grandes quintas.
A Praia das Maçãs tem a designação de “praia urbana” e as antigas aldeias no sopé da serra há muito se transformaram em bairros compostos por moradias em banda, um sortido heterogénio de vivendas independentes, piscinas, lotes de gaveto, e até alguns prédios, que aumentam a olhos vistos. O bosque serrano, que eu não frequento, é um lugar com muitas interferências; de filmagens, sessões fotográficas, práticas xamânicas, vestígios devocionais, turismo, desportos, espécies invasoras, medidas duvidosas de gestão, e incursões de grupos, que também têm impacto.
Prosseguindo, no comentário da Iris na página pública do blogue, não percebo a que se deveu a advertência, “Se te referires a mim e ao meu trabalho…”, como se isso alguma vez tivesse acontecido ou fosse provável. Eu nunca me pronunciei acerca do que conheci do trabalho que a Iris desenvolvia. No texto acerca de “centros de retiros”, eu fiz questão de escrever, “sem prejuízo das actividades desenvolvidas” naquele local. Muito menos, alguma vez eu escrevi ou fiz qualquer alusão acerca da Iris, com quem nunca tive proximidade.
Se ela se identificou com alguma generalização, lamento, mas eu nunca escrevi nada a pensar que ela iria ver ou de que forma iria interpretar fosse o que fosse. Eu era desatenta, e a partir de certa altura, sobretudo da minha primeira gravidez (2017/2018), fiquei mesmo bastante indiferente, em relação à maior parte das publicações da Iris. Por vezes, algumas manifestações extremadas, dramáticas ou absurdas, chamaram a minha atenção, mas pouco mais do que isso. Como no caso dos dois posts consecutivos sobre “ADN celta…” e uma alegada “ascendência gaélica…”, que despertaram o meu interesse, por razões óbvias, mas que a Iris não poderia adivinhar. Foram publicados pouco antes de ela banir os meus perfis. Mais sobre isto, adiante. Entre nós, havia apenas alguma cordialidade, mas cedo percebi que ela dispensava os meus comentários e a mensagem de voz foi reveladora da animosidade que a Iris nutria em relação a mim. É inegável.
Acerca de “conflitos e polémicas”, é uma insinuação grave, dado que eu nunca dei azo a isso. Ao ter escrito aquilo, em público, numa página minha, foi a própria Iris que criou e tentou envolver-me em “polémicas”. Fiquei com a sensação de que ela queria alguma reação pública da minha parte, algum “debate” em comentários, depois do monólogo absurdo em privado. Ela não escreveu nada daquilo para mim, mas sim para quem mais pudesse estar a ler.
Embora as minhas palavras lhe servissem como uma luva, a publicação acima não tinha a ver com a mensagem. É claro que eu escutei mais do que o suficiente, que ainda tinha aquilo em mente, e isso notou-se no meu desabafo. Afinal, uma pessoa que eu conhecia estava a passar pela mesma situação, por causa de uma publicação num grupo, do qual a Iris nunca foi membro, e isso ressoou em mim. Mantenho tudo o que escrevi. Se a Iris achou que o post era acerca da mensagem, então, não havia necessidade de fazer mais um solilóquio moralizante e falso, a mencionar “verdadeira amizade” nos comentários, sem o sentir e sem ter tido a frontalidade de dialogar comigo, dando “oportunidade ao debate”. Uma troca de impressões a horas decentes, de forma direta, dizendo o que realmente a incomodava, e que me permitisse interpelá-la, em vez de ter de escutar um monólogo depreciativo da minha pessoa, amesquinhante e vago, durante vários minutos.
Se a Iris queria distância e lhe faltava frontalidade e humildade para se dirigir a mim de forma condigna, pessoal, e não como co-administradora ou moderadora de qualquer grupo, devia ter-se simplesmente retirado da minha lista de contactos, sem implicar ruidosamente com a minha publicação, em vez de apenas anular o pedido no grupo, sem me enviar estas gravações depreciativas, a dizer de tudo para que eu me afastasse, ou mesmo para que eu a bloqueasse de vez e desaparecesse do panorama, para sempre. É claro que ela não faz a mais pálida ideia de quem sou e do que me move. Como aquilo não aconteceu, em algum momento em meados de Abril de 2021, a Iris apartou-se dos meus perfis sociais, sem uma palavra. Pode ter-se melindrado com algumas publicações, “walk the talk…”, no meu perfil de Facebook. Como este comunicado que eu também tinha publicado no blogue Divina Mens – Mente Divina, no artigo “Personas, personalidades e paranóia”, de Agosto de 2019:
“Antes de mais, para ser clara como cuspo de anjo, quanto a manifestações de desagrado e indignação que me tenham sido dirigidas, devo dizer que não encontraram terreno fértil a polémicas, questiúnculas, suspeitas e mesquinharias. Não dou ouvidos, literalmente, a qualquer mensagem ou monólogo que, à partida e apesar do tom de voz estudado que não disfarça a crispação, soa a uma recriminação, é disparatada, absurda, descabida, ofensiva, discriminatória, inoportuna, indiscreta, abusiva da minha disponibilidade e da confiança que dei a alguém. Enfim, um teste à minha paciência. Mais, reconheço nesse tipo de missiva holier than thou, com função moralizadora, o intuito subliminar de humilhar, de condicionar o discurso alheio e de desencorajar, ou mesmo eliminar, a partilha pública.
Nem no meu perfil pessoal nas redes sociais nem na página pública afeta a este blogue há espaço para o diz-que-disse, para o sarcasmo medíocre, nem para os joguinhos dos pequeninos poderes, que só podem decidir quem participa nos seus quintaizinhos sociais. Este espaço tem um intuito benéfico, despretensioso, e é usado de boa-fé. Não é nenhuma coluna de escárnio e maldizer acerca desta ou daquela pessoa. Igualmente, de acordo com a pessoa que o dinamiza, também não se presta ao proselitismo, às afiliações, às parcerias promocionais, nem às bajulações.
De resto, este blogue – como toda a minha presença nas redes sociais – são feitos de apontamentos e intervenções momentâneas ou apenas esporádicas, não constituindo uma parte significativa da minha vida. Qualquer comentário deve ser breve, claro, objetivo, e depurado de dramatismo, insinuações, e raiva. Asseguro que tento ler todos e dar-lhes reconhecimento. Não ambiciono ter uma multidão de seguidores nem um mar de elogios. Definitivamente, não sou uma “personalidade” emergente, nem decadente, no microcosmos das espiritualidades, das artes populares, nem da domesticidade ecológica.
Sem uma equipa de gestão de Comunicação e Imagem, a capacidade de moderar centenas de interacções nas redes sociais é muito limitada, o que pode suscitar alguma mania de perseguição a quem confia grande parte da sua vida às redes sociais, e a elas recorre para gerir vários aspectos das suas iniciativas profissionais. O medo e a ansiedade são compreensíveis, mas devem ser relativizados, sob pena de alimentarem a paranóia, que faz as pessoas sentirem-se constantemente no centro das atenções ou aversões alheias. Por sua vez, isso é um catalisador de problemas, se não houver ninguém que saiba impor limites aos seus efeitos e consequências.”

No entanto, a Iris não só se retirou como, por motivações nada transparentes, recorreu ao bloqueio eletrónico dos meus perfis sociais @andreiasdemorais! Foi mais uma inversão da realidade. Ao contrário do que a Iris fez, eu nunca a importunei com comentários sinuoso em página pública, mensagens escritas nem missivas de voz de desapreço, a desprezar a nossa conexão. A Iris só precisava de ignorar as minhas publicações e deixar o meu perfil social! Os bloqueios tiveram o condão de me deixar mais atenta às publicações dela, às quais sempre acedi de forma legítima. A Iris estava a par dos meus interesses célticos e arturianos, da minha ligação de longa data a Glastonbury e ao sudoeste britânico. É inusitado que a Iris, algum tempo depois de bloquear os meus perfis, tenha passado a publicar os referidos conteúdos, cooptando os Celtas e a Lenda Arturiana e dizendo publicamente, com a aparência mais cordata e inclusiva do mundo:
“Gostava que nos concentrássemos aqui um pouco, que pensássemos em conjunto sobre a Lenda Arturiana”
Em Setembro de 2023, segui o perfil de Instagram da Iris com um perfil provisório. Sem surpresa, foi imediatamente bloqueado por ela e, no mesmo momento, removido do perfil da colaboradora acima mencionada. Esta atitude fóbica de rejeição conjunta foi incoerente, porque a Lila Moreira manteve sempre a conexão no meu perfil privado de Facebook, por alguma razão que evito conjeturar. Fui eu que achei por bem terminar essa ligação, algum tempo depois disto.
A Iris não precisa de um bloqueio para me dissuadir de tentar participar, ou para deixar claro que estou barrada de participar, nas iniciativas dela. De certo, reparou que eu só o fiz uma vez, em 2016, que não adentrei o Temazcal realizado no logradouro, e que nunca mais me inscrevi, por razões que não têm apenas a ver com aquilo que escrevi no blogue, mas também com questões pessoais e de natureza sensitiva, com situações que simplesmente não ressoam em mim, e outras que não me agradaram e nem têm nada a ver com alojamentos, mas que só percebi bem à posteriori.
Não tem de me penalizar por isso. Apesar de naquele momento eu me sentir desgastada pelas circunstâncias que vivenciei, em presença, eu agradeci por escrito o que de bom aconteceu. Não senti que fosse oportuno nem que houvesse proximidade para referir mais nada, depois de terminada aquela “imersão” de fim-de-semana. Afinal foi só mais uma entre as muitas iniciativas que ela organiza, com centenas ou milhares de mulheres que devem estar muito satisfeitas. Eu é que deveria ter seguido a minha intuição, confiado nos meus pressentimentos, e não participado.
Tudo o que aconteceu me levou até aos “super vídeos”, à falta de noção e às deturpações da Iris acerca da Lenda Arturiana, dos Celtas, e de vários aspetos da Herança Céltica, que são o motivo desta publicação. A Iris deve saber que um bloqueio eletrónico de perfis sociais não serve para controlar o que outras pessoas vêem, porque não constitui uma proibição imposta a ninguém de aceder a qualquer conteúdo público. As publicações em qualquer formato estão sujeitas a observações e a opiniões públicas, que qualquer pessoa é livre de fazer, mesmo que uma autora prefira permanecer apartada por detrás de bloqueios mesquinhos e não queira tomar conhecimento disso ou não venha a admiti-lo publicamente. No que a mim diz respeito, a “investigadora” enfaticamente “pagã”, Iris Lican Garcia, ficou:
“a perder a oportunidade de visões múltiplas e por isso sempre necessariamente mais amplas.”
Palavras da Iris na página pública do meu blogue Divina Mens, em 28 de Julho de 2019.

Nota legal:
As menções, os breves resumos de vídeos e notas biográficas são publicadas de acordo com os termos previstos no Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, TÍTULO II – Da utilização da obra, CAPÍTULO II – Da utilização livre e permitida, SECÇÃO I – Da utilização livre, alínea h) do nº 2 do Artigo 75.º;
«2 – São lícitas, sem o consentimento do autor, as seguintes utilizações da obra:
h) A inserção de citações ou resumos de obras alheias, quaisquer que sejam o seu género e natureza, em apoio das próprias doutrinas ou com fins de crítica, discussão ou ensino, e na medida justificada pelo objectivo a atingir; »
De acordo com a alínea a) do nº 1 do Artigo 76.º;
«Requisitos
1 – A utilização livre a que se refere o artigo anterior deve ser acompanhada: a) Da indicação, sempre que possível, do nome do autor e do editor, do título da obra e demais circunstâncias que os identifiquem;
2 – As obras reproduzidas ou citadas, nos casos das alíneas b), d), e), f), g), h) e i) do n.º 2 do artigo anterior, não se devem confundir com a obra de quem as utilize, nem a reprodução ou citação podem ser tão extensas que prejudiquem o interesse por aquelas obras.»
Capturas de ecrã do Instagram e do Vimeo de acordo com os termos previstos na Section 107. Limitations of Exclusive Rights: Fair Use, US Copyright Law:
«Notwithstanding the provisions of sections 106 and 106A, the fair use of a copyrighted work, including such use by reproduction in copies or phonorecords or by any other means specified by that section, for purposes such as criticism, comment, news reporting, teaching (including multiple copies for classroom use), scholarship, or research, is not an infringement of copyright. In determining whether the use made of a work in any particular case is a fair use the factors to be considered shall include—
(1) the purpose and character of the use, including whether such use is of a commercial nature or is for nonprofit educational purposes;
(2) the nature of the copyrighted work;
(3) the amount and substantiality of the portion used in relation to the copyrighted work as a whole; and
(4) the effect of the use upon the potential market for or value of the copyrighted work.
The fact that a work is unpublished shall not itself bar a finding of fair use if such finding is made upon consideration of all the above factors.»
onsideration of all the above factors.»
















